Jung e o universo dos arquétipos

Carl G Jung foi um dos grandes pensadores e estudiosos da psique humana no século XX. Iniciou seus estudos nos círculos da psicanálise, a teoria que criou a a grande revolução da filosofia do início do século XX: a idéia de que a psique humana divide-se em consciente e inconsciente, mais especificamente, em ego, super-ego e id. E que os processos inconscientes, de caráter surrealista e não-lógico, acessíveis através dos sonhos, são a matriz do consciente, das neuroses, da própria personalidade humana. Assim como Wilhelm Reich, Jung foi "discípulo" de Freud e dentro de poucos anos rompeu com o "mestre", buscando caminhos diferentes da petrificada e dogmática psicanálise. Jung estudou todo tipo de cultura, etnia e religião que conseguiu, viajou por grande parte do globo, para formar uma teoria consistente, relativista e sobretudo humana.

Fascinado pelos símbolos, observando como os mesmos são importantes em todo o desenvolvimento da cultura humana, criou o conceito de arquétipo, e foi além da psicologia analítica, criando a hipótese de que abaixo do inconsciente pessoal, existe ainda o inconsciente coletivo, algo como a memória coletiva inconsciente da humanidade. Dessa forma, segundo o bigode, toda a humanidade está interligada através do inconsciente coletivo, de onde se originam os arquétipos, os símbolos universais. Tal afirmação me parece uma explicação razoável para fenômenos estranhos como visão remota/clarividência, previsão de acontecimentos através de sonhos (premonição) e sincronismos. Os espíritas explicam esses fenômenos de uma forma extremamente religiosa, que nunca me agradou, sempre apelando para o "darwinismo espiritual" onde tudo está relacionado a um nível de evolução espiritual, determinado por um conceito absoluto de bem e mal. A idéia de inconsciente coletivo tem seus paralelos atuais nos estudos de um bioquímico chamado Rupert Sheldrake e sua teoria dos campos morfogenéticos.

Jung é mal visto por toda a comunidade científica, assim como pelos psicanalistas (que trabalham em cima de conceitos tão metafísicos quanto Jung, mas se acham cientistas possuidores da verdade), sendo chamado de místico. É bom lembrar que a proposta de Jung não era criar uma teoria científica, até porquê parece impossível criar uma teoria científica da mente, partindo do ponto que não há com comprovar nem mesmo sua existência. O que Jung fez, foi criar uma filosofia, utilizando alguns conceitos da ciência ocidental e ao mesmo tempo, não rejeitando o universo da gnose, dos mitos, sonhos e símbolos. Foi de fato, um precursor na junção do pensamento ocidental e oriental, tendo publicado em conjunto com Wolgang Pauli (prêmio nobel de Física de 1945, criador da teoria do spin quântico e do princípio da exclusão) o livro "A interpretação da natureza e psique". Pauli criticou partes do trabalho de Jung, que foram revistas.

A teoria de Jung sempre esteve disposta a recebr críticas e ser revista, caracterizando-se assim como uma verdadeira filosofia, e não uma doutrina.

Algumas citações, retiradas do livro "O pensamento vivo de Jung" da Editora Martin Claret: 

"A sociedade espera, e tem razão para esperar, que cada um desempenhe o mais perfeitamente possível o papel que lhe coube; assim, um homem que seja sacerdote deve em todas as ocasiões desempenhar impecavelmente o papel de sacerdote. A sociedade exige-o por uma espécie de segurança: todos devem permanecer no seu posto, aqui um sapateiro, além um poeta. Não se espera que ninguém seja ambas as coisas […], isso seria "esquisito". Um homem desses seria "diferente" dos outros, não mereceria confiança. No mundo das letras seria um diletante; em política, uma grandeza "imprevisível"; em religião um livre-pensador. Em suma, seria suspeito de incompetência e inconsistência, pois a sociedade está convencida de que só um sapateiro que não seja poeta poderá fazer sapatos bem acabados."

 "O sonho é o teatro em que o sonhador é simultaneamente a cena, o ator, o ponto, o diretor, o autor e o crítico."

Isso poderia ter sido escrito por Stirner, defendendo seu "único", ou Nietzsche, defendendo seu "super-homem":

"A individuação, o tornar-se si mesmo… é o problema da vida em geral."

"A individuação não exclui o universo, ela o inclui." 

 Porém, esse trecho mostra que, ao contrário de Nietzsche, que defendia a todo custo o espírito dionísico e irracional e a morte do espírito apolíneo e racional, Jung propõe um equilíbrio entre  consciente e inconsciente:

"O consciente e inconsciente não constituem um todo, quando um deles
é suprimido ou injuriado pelo outro. Se hão de brigar, que ao menos
seja um combate leal, com direitos iguais para ambas as partes. Ambos
são aspectos da vida. A consciência tem de defender sua razão e
proteger-se; e a vida caótica do inconsciente deve ter a oportunidade
de também seguir seu fluxo. Isto significa simultaneamente conflito
aberto e franca colaboração. Era assim, evidentemente, que a vida
humana devia ser, o velho jogo do martelo e bigorna: por meio deles, o
ferro do paciente é forjado num todo indestrutível, um indivíduo. Eis,
em grandes linhas, o que eu entendo por processo de individuação." 

Isso é uma alerta para a geração Ian Curtis e Kurt Cobain:

"Conquanto tudo seja experimentado em forma de imagem, isto é, simbolicamente, não se trata de modo algum de perigos fictícios, mas sim de riscos muito reais, dos quais depende o destino de toda uma vida. O principal perigo é ceder à fascinante influência dos arquétipos. Se cedemos, podemos ficar paralisados numa situação simbólica ou na identificação com uma personalidade arquetípica."

Quantas pessoas se suicidaram influenciadas por seus ídolos, que interpretaram a figura arquetípica do eterno depressivo?

Para mais referências sobre Jung, esse site é uma boa pedida: http://www.cgjungpage.org/