Violência Policial na Udesc

Ao longo do mês de maio ocorreram quase todos os dias manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus em Florianópolis, movimentando milhares de pessoas contra a indústria do transporte coletivo. No dia 31 de Maio, policiais invadiram o Campus da Udesc e agrediram estudantes com gás de pimenta, cacetetes e choques elétricos. Tratava-se de uma manifestação pacífica de 150 estudantes e populares contra o aumento das tarifas de transporte coletivo em frente ao portão da instituição de ensino. Durante a invasão policial estudantes que estavam nas dependências do campus universitário foram agredidos e 5 pessoas foram presas.

Em uma entrevista concedida após o violento espetáculo, o Tenente Coronel Newton Ramlow (responsável pela ação policial), afirmou que "a ação foi um tapinha na bunda no movimento, como que um pai dá em um filho para que ele se organize e não repita o vandalismo da ultima quinta onde vidros do banco Santander e BESC foram quebrados" [1]. A partir desta afirmação, faço algumas reflexões sobre o papel da polícia em uma sociedade falsamente democrática, que em última instância parece buscar o controle por meio de metamorfoses constantes. Ao realizarmos bem nosso papel de consumidores, exercendo a liberdade, a igualdade e a fraternidade através do consumo, a sociedade nos parece mansa e nos garante até mesmo uma liberdade de expressão ilusória. Mas em alguns momentos, principalmente por meio da ação policial, há uma metamorfose para a violência, que traz a possibilidade de se desmascarar a ilusão de que existe liberdade de expressão [2]. O poder não pode ser encarado como o estado ou a corporação, mas como
uma entidade híbrida alimentada por uma defesa recíproca de interesses entre
ambas as instituições, com o único compromisso de garantir sua própria
sobrevivência.

A afirmação por parte do tenente de que a polícia estava agindo como um pai protetor, mais do que uma justificativa sem sentido para desmobilizar os manifestantes através de violenta repressão, nos leva diretamente à noção de biopoder [4]. O poder que assume a posição de controlar a vida em seus aspectos mais básicos através de toques de recolher, medidas corretivas, ou como o tenente mesmo diz, "tapas na bunda do movimento". Se a família enquanto instituição fracassa em "educar" suas proles segundo os valores da moral e da obediência, e os tapas que os pais dão nos filhos não são o suficiente, o estado se presta à função de realizar esta tarefa.

Em contato com Y. , um amigo de Florianópolis que participou das manifestações, ele me garantiu que em nenhum momento o movimento tomou a postura de quebrar os vidros dos bancos, tendo sido este um caso isolado, muito provavelmente de pessoas infiltradas [3].

Como estudante (formando) da Udesc em Joinville, quero expressar meu repúdio pelo ocorrido, e relatar que eu e mais alguns amigos fomos procurar a imprensa do Centro de Ciências Tecnológicas da Udesc Joinville e o Danma (Diretório Acadêmico) para que se manifestassem contra o absurdo que foi a invasão e prestassem solidariedade. Infelizmente a imprensa não realizou nenhuma publicação sobre o assunto, mesmo com nosso pedido. Os integrantes da chapa atual do Danma também não se demonstraram interessados, e alguns deles chegaram inclusive a defender a ação policial. Tivemos que conversar com a Dani, presidenta do DCE da Univille, para participar da reunião do Danma e relatar sua participação em uma das manifestações em Florianópolis, dando uma ideia diferente daquela que é passada pelos mentores intelectuais (dentre eles Luiz Carlos Prates) dos estudantes de engenharia da Udesc.

Desta forma, repudio aqui não só a atitude dos policiais que invadiram a Udesc em Florianópolis, mas também a atitude socialmente deslocada da chapa atual do Danma e da imprensa da Udesc Joinville. Isto caracteriza uma triste falta de solidariedade e total desconexão entre os diferentes centros/campus da Udesc.

[1] Relato do evento de invasão da UDESC – disponível em http://www.fltcfloripa.libertar.org/?p=220#more-220

[2] À respeito da violência policial e pseudo-democracia, Howard Zinn nos diz "Liberdade de expressão? Tente e a polícia estará lá com seus cavalos, seus cassetetes, suas armas, para parar você."

[3] Mesmo que a postura de destruir propriedades tivesse sido adotada pelo movimento, tenho uma tendência em acreditar que é impossível cometer violência contra objetos: a violência é um ato sempre cometido contra pessoas, através de agressões físicas ou psicológicas. Quando símbolos da sociedade do lucro como os bancos são quebrados, o que está em jogo são valores que sustentam a sociedade e o poder econômico. E inevitavelmente haverá uma reação verdadeiramente violenta por parte dos mecanismos de defesa desta sociedade, através da força policial. Por exemplo, nos protestos contra o G8 ocorridos em 1999 em Gênova, quando carros foram queimados e redes de fast food foram destruídas, a polícia reagiu com verdadeira violência, assassinando o manifestante italiano Carlo Giuliani.

[4] Biopoder é um conceito criado por Michel Foucault para se referir ao poder exercendo controle diretamente sobre o corpo e a vida humana, incluindo processos como o nascimento, a morte, a produção, a doença, etc. A noção de biopoder relacionada à atuação do estado parece ainda bastante atual e pode ser relacionada também a casos como a farsa da gripe H1N1, como foi feito neste artigo.

Mímesis Mulleriana

 

O nome da exposição
Mimesis Mülleriana uma  Plágiocombinação
vem
do conceito de Mimetismo Circular, atribuído à descoberta de
Fritz
Müller em sua observação da flora e fauna.
Fritz
Müller observou que em alguns casos duas espécies se imitam
reciprocamente e ao
se transformarem acabam se assemelhando.
A
metáfora na exposição referencia a natureza processual dos projetos
colaborativos das instalações multimídia resultantes da Oficina de Arte e
Tecnologia. A oficina, promovida durante o primeiro semestre de 2010,
como
evento de extensão do Ceart da UDESC e acolhida pela Fundação Cultural
de
Joinville e pela Casa da Cultura, Galeria de Arte Victor Kursansew,
resultou na
exposição
Mimesis
Mülleriana.
O
prognóstico quanto aos trabalhos que envolvem arte e tecnologia relativo
aos
procedimentos da produção e recepção e circuito exibitivo foi
confirmado. A
maior transformação consiste ainda em como percebemos nossos
instrumentais.

Em 2006 a exposição Emparedados,
no MHSC, focou projetos de instalações interativas que se apropriaram do
histórico e do aparelhamento do museu histórico com seus arquivos e
mobiliário.
As instalações pensadas como site specific se referiam à memória
do
prédio e seu uso no passado como domicílio do governador e de sua
família, e
como gabinete de governo. Estas pretendiam ao meu ver instalar um
dispositivo
poético no visitante sobre a memória do espaço. Eram dispositivos
imateriais,
processuais.

Na exposição processo
Mímesis Mülleriana, agora aberta na Galeria Victor Kursansew,  o
que chama a atenção não são os projetos dos coletivos ou dos artistas
individuais
mas o fato dos próprios artistas eles mesmos serem os potencializadores
do
processo contagiando outros por proximidade presencial. Durante a fase
de
gestação dos projetos a percepção é exacerbada e amplificada por outros
que não
são apenas receptores da proposta poética. Os micro-controladores usados
em
alguns dos projetos apenas controlam estímulos de entrada e de saída.
Mas a
condutividade da poética junto à percepção materializada é que determina
o
“estado obra” em devir. 

Por Yara Guasque