Pi, o filme : Não quero seu dinheiro, apenas seu Sílicio

Published on 18:04, 06/02,2009

 

Com um ar expressionista, filmado todo em preto e branco com alto contraste, Pi, de Darren Aronofsky, é um filme de clima tenso, que expõe um matemático a beira da insanidade, em sua busca pelo padrão numérico definitivo, aquele que determina o comportamento genérico da natureza. Estudando os padões na bolsa de valores, Max chega a um mesmo número que um matemático judeu que estuda os padrões numéricos no Torá.  Como o matemático grego Pitágoras, Max acredita que todas as coisas são números. Isso é ressaltado ao longo do filme, com a repetição do seguinte monólogo de Max:

"Eu reassumo minhas posições:
1- A matemática é a língua da natureza.
2- Tudo o que existe pode ser representado e entendido por números.
3- Se você criar gráficos dos números de qualquer sistema, padrões surgirão
4- Existem padrões em todos os lugares da natureza".

Mas de forma análoga ao personagem Fausto, de Goethe, Max torna-se obcecado e paranóico em sua incessante busca pela Verdade. Como Fausto, que realiza o clássico pacto com o Diabo afim de obter o segredo da existência, Max faz um acordo com a máfia suja que procura faturar alto por trás da bolsa de valores. A princípio ele nega o dinheiro que lhe foi oferecido, afirmando que suas pesquisas não são motivadas pelo dinheiro, mas sim pela curiosidade científica. Mas o processador valvulado de Max queima ao calcular pela primeira vez a sequência de 216 números que definiria o comportamento do número Pi, o que faz com que o matemático acabe por aceitar um acordo com os investidores, onde ele teria que fornecer seus resultados e em troca receberia um poderoso microprocessador de Silício.  

O estilo do diretor Darren Aronofsky, ao usar a repetição frenética de cenas e diálogos, enquadramentos ousados, situações perturbadoras e os efeitos de substâncias químicas no organismo seria adotado mais tarde também no filme Requiem para um Sonho, do mesmo diretor.
A situação vivida por Max nos traz à mente filmes como "El maquinista", de Brad Anderson , e a fotografia traz a lembrança do clássico expressionista "Metropolis" de Fritz Lang, assim como "Eraserhead" de David Lynch.

O número Pi

Pi é o valor da razão entre o comprimento da circunferência e o seu diâmetro. Também é uma das mais antigas constantes matemáticas conhecidas (fala-se do Pi em relatos feitos pelos antigos gregos, há mais de dois mil anos). Um círculo é, provavelmente, a forma geométrica mais perfeita e simples conhecida pelo ser humano. Como o Pi não é uma fração, não existe uma forma de descobrir seu valor exato. Na escola, aprendemos apenas que Pi é igual a 3,14 - e já basta para os cálculos das aulas de matemática e física. Já em cálculos científicos, usam-se mais dois números após a vírgula: 3,1416.

Praticamente desde que o Pi existe, matemáticos e pesquisadores de todo o mundo têm dedicado muito tempo a calcular e descobrir mais e mais dígitos possíveis após a vírgula, transformando o valor de Pi em um número gigantesco. Sendo um número infinito, muitos matemáticos se dedicam também a pesquisar os incalculáveis dígitos do Pi em busca de um padrão, um número perfeito que seria a resposta para tudo o que existe no Universo.

Nada melhor que finalizar o texto com o Pi contendo 10.000 números após a vírgula:

3.1415926535897932384626433832795028841971693993751058209749445923078164062862
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Referências
http://www.bocadoinferno.com/romepeige/artigos/pi.html
http://oldweb.cecm.sfu.ca/projects/ISC/dataB/isc/C/pi10000.txt


Paul Feyerabend: pela democracia na ciência

Published on 19:41, 06/01,2009

Feyerabend tornou-se famoso pela sua visão anarquista da ciência e por sua suposta rejeição da existência de regras metodológicas universais. Ele indignou-se especialmente com atitudes condescendentes de muitos cientistas em relação a tradições alternativas. Por exemplo, ele pensava que opiniões negativas a respeito da astrologia e a eficiência de danças da chuva não estavam justificadas por pesquisas cientifícas, e dissimulavam predominantemente atitudes negativas de elitismo e racismo. Em sua opinião, a ciência tornou-se uma ideologia repressiva, muito embora tenha surgido como um movimento de libertação. Segundo o pensamento de Feyerabend uma sociedade pluralística deve proteger-se de ser muito influenciada pela ciência, assim como de outras ideologias.

Feyerabend, fazendo uma careta verycrazyIniciando com a suposição de que um método científico universal historicamente não existe, Feyerabend argumenta que a ciência não merece o status privilegiado que possui na sociedade ocidental. Uma vez que os pontos de vista científicos não surgem de um método universal que garanta conclusões de alta qualidade, ele sustentou que não há justificação para a valorização científica reivindicada sobre outras ideologias, como as religiões, por exemplo. Argumenta também que conquistas científicas como a chegada do homem à lua não são razão suficiente para dar à ciência um status especial. Em sua opinião, não é justo utilizar suposições científicas para determinar quais problemas merecem ser resolvidos e para julgar o mérito de outras ideologias. Além disso, o sucesso dos cientistas está tradicionalmente envolvido com elementos não-científicos, tais como inspiração a partir de pensamentos míticos ou de fontes religiosas.

Baseado nestes argumentos, Feyerabend defendeu a idéia de que a ciência deve ser separada do estado da mesma maneira que a religião é separada na moderna sociedade secular. Ele vislumbrou uma "sociedade livre" na qual "todas as tradições têm iguais direitos e igual acesso aos centros de poder". Por exemplo, os pais devem ser capazes de determinar o contexto ideológico da educação de seus filhos, em vez de terem suas opções limitadas pelos padrões científicos. De acordo com Feyerabend, a ciência deve também estar sujeita ao controle democrático: não apenas determinar que assuntos devem ser pesquisados através de eleição popular, as suposições e conclusões científicas também devem ser supervisionadas por comitês de pessoas leigas. Segundo ele os cidadãos devem utilizar seus próprios princípios ao tomar decisões a respeito do que realmente importa. Em sua opinião, a idéia de que as decisões devam ser racionalistas é elitista, pois assume que filósofos ou cientistas estão em posição de determinar os critérios pelos quais as pessoas em geral devem tomar suas decisões.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Feyerabend


A sociedade dos Big Brothers voluntários

Published on 02:50, 04/26,2009

Há mais de uma década, todas as maiores cidades do mundo passaram a ser equipadas com câmeras de vigilância. A justificativa dada pelos governos sempre foi clara: garantir a segurança. A maior parte das pessoas não questionou e acabou por aceitar essa nova realidade, sutilmente imposta pelas autoridades locais. O senso comum diz "porquê vou me preocupar com câmeras? Não tenho nada a esconder, sou um cidadão de bem, e além do mais, essas câmeras são importantes para que sejam identificados atos criminosos" . A identificação dos criminosos certamente é um dos objetivos da implantação das câmeras, mas há um outro ponto que não é exatamente o controle da violência, mas um tipo muito peculiar de controle social. É claro que precisamos ainda definir o que são "os criminosos". É comum governos e corporações considerarem criminosos aqueles que lutam contra injustiças praticadas por essas instituições. Um exemplo simples, adaptado à realidade de Joinville, foi a perseguição realizada contra integrantes do Movimento Passe Livre em 2005 [1]. Seguranças contratados pelas empresas de transporte coletivo da cidade seguiram e ameaçaram através de  "terrorismo psicológico"  militantes do movimento, que estavam participando de protestos contra os aumentos da tarifa de ônibus. Com as câmeras de vigilância, esse tipo de controle social torna-se potencialmente ainda mais efetivo.

Analogia com a ficção de George Orwell

Na vigilância pública realizada pelos governos e polícias, todas as imagens ficam gravadas e restritas a um número limitado de pessoas, que trabalham nas centrais de monitoramento.
Esse é um tipo de controle realizado pelas autoridades com objetivos de manter a "ordem" e a "harmonia".

Big BrotherPelo caráter de imposição e controle vertical, pode ser feito uma analogia entre esse tipo de vigilância e o que ocorre na ficção de George Orwell, 1984, escrita no ano de 1948.
Em 1984, todas as ruas e casas são equipadas com tele-telas, dispositivos que filmam e reproduzem a imagem do Grande Irmão (Big Brother), com seu olhar severo de eterno vigilante. O Grande Irmão é uma figura interessante, pois apesar de ser visto pelas tele-telas, ninguém nunca o viu fisicamente. Trata-se de uma figura tão mistificada e poderosa, que aparentemente não possui existência física.

O objetivo das tele-telas é registrar atos que possam representar dissidências ao Estado/Partido. A ênfase nesse caso é na disciplina, onde todas as pessoas devem obediencia total ao estado, sendo proibida qualquer forma de pensamento livre, criatividade ou mesmo expressão de emoções. A única expressão permitida é a declaração de dever ao Partido.

Todavia, seria exagerado e paranóico afirmar que a ficção de Orwell  está se profetizando. O controle por meio do Estado descrito por Orwell, representa um Poder que seria melhor associado com aquilo que Michel Foucault chamou de Sociedade Disciplinar, a partir de seus estudos das chamadas instituições disciplinares clássicas: clínica/hospício, escola e prisões. Essa Sociedade Disciplinar foi a forma como o Poder se desenvolveu no século XX, através dos regimes totalitários, guiados por nomes como Stalin, Hitler, Mussolini, Franco ou ainda, Getúlio Vargas.

Da Sociedade Disciplinar à Sociedade de Controle

Com o advento dos meios de comunicação em massa, dos regimes de democracia representativa e dos setores de prestação de serviços, o Poder veio a adquirir formas mais sofisticadas de ação, menos baseado na repressão explícita, dando ênfase às liberdades de consumo e a incorporação de símbolos, onde a publicidade utiliza princípios de semiótica para vender cada vez mais. Gilles Deleuze defende que a concretização da Sociedade Disciplinar é a Sociedade de Controle (que normalmente vem sendo chamada de Sociedade de Rede ou da Informação).  Trata-se do capital assumindo a forma rizomática, interiorizada, onde o controle passa a ser mais horizontal do que vertical, mesmo que isso pareça contraditório.

Depois do capital ter se apropriado das artes, dos meios de comunicação e ter se adentrado cada vez mais nos campos subjetivos, agora ele se funde nos processos criativos, no inconsciente, nos desejos humanos mais íntimos. Diminui-se a ação do Poder, sob a forma da Disciplina, na forma agressiva e impositora. Na sociedade disciplinar existia a censura, a confissão, a perda da identidade. Agora você pode ser quem quiser, ser comunista e usar uma camiseta do MST, ter um site na internet criticando qualquer governo de qualquer país (com excessão da China), que provavelmente você não será exilado por isso. Essas liberdades são sempre apenas liberdades de consumo, onde tudo é reduzido ao título de mercadoria, mesmo a rebeldia. Desse modo, poderíamos concluir que se faz cada vez menos necessária uma imposição de disciplina de um governo sob a população, pois as próprias pessoas estão começando a realizar esse (auto)controle [2] , por exemplo, através de formas voluntárias de vigilância e exposição de suas vidas.

O cenário Web

O sucesso das redes de relacionamento social na web podem ser indícios de que Deleuze tenha alguma razão. Luli Radfahrer [3] afirma que o micro-blog twitter é uma espécie de Big Brother voluntário, onde as pessoas dão detalhes sobre tudo o que estão fazendo, sem que sejam obrigadas a isso. De fato, parece que estamos vivendo um tempo da efetivação dos Big Brothers voluntários, sendo o sucesso de audiência do programa de televisão de mesmo nome o maior exemplo de como a vigilância é um fator crucial em nossa atual sociedade.

Homem com as calças caindo pego pelo Street ViewA nova tecnologia do Google, o Street View, leva essa vigilância a um nível ainda mais alto. O Google Street View permite que se navegue pelas ruas de uma cidade em três dimensões, com 360 graus na horizontal e 270 graus na vertical. Um carro do Google transita pelas ruas das cidades, tirando fotos, que ficam disponíveis a qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo. É a situação dos big brother voluntários, onde todos vigiam todos, levada ao nível das imagens.

Alguns sites como a comunidade GSTV Brasil foram criados para disponibilizar imagens de pessoas em momentos frustrantes, captadas pelo Street View. Houve também um caso polêmico de divórcio causado através do Street View: um homem havia avisado sua mulher que sairia de férias e navegando pela ferramenta ela descobriu que o carro de seu marido estava em frente à casa de sua amante, na mesma cidade.Após esses casos, o Google passou a borrar os rostos das pessoas e placas de carros nas imagens, alegando que dessa forma protegeria a privacidade das pessoas. 

O Google vem seguindo há alguns anos a prática de não apagar nenhuma informação de seus servidores e é bem provável que o mesmo está sendo aplicado ao Street View. Isso significa que seus servidores tem o potencial de armazenar um histórico com imagens de tudo o que ocorre nas maiores cidades do mundo.

A implantação de câmeras pelas cidades é algo que ameaça não apenas a privacidade, mas o próprio livre-arbítrio. A partir do momento que sabemos que existem câmeras mapeando nossos movimentos, agiremos de forma diferente, guiados pelo medo de sermos vistos sendo nós mesmos. Temo que o produto a longo prazo disso seja algo como descrito em Homem Duplo, conto cyberpunk de Philip K. Dick, onde o personagem principal se vê numa situação onde trabalha como vigilante, controlando todos os seus amigos e ao mesmo tempo vigiando sua própria vida.

Todos esse fatores, a princípio, podem nos levar a adotar uma visão pessimista. Mas há uma série de iniciativas baseadas em princípios vindos da cultura hacker que tem lutado por políticas de privacidade na internet. A Privacy International, por exemplo, foi quem conseguiu que o Google borrasse o rosto das pessoas no Street View. É importante que questinemos a implantação de novas tecnologias, pois elas nunca são neutras, tendo impactos diversos sob todos os espectros da vida humana.

[1] Mais informações sobre o caso em http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/11/335517.shtml

[2] Mais sobre poder rizomático, em  "Neuromagma e Multidão", por Peter Pal Perbart. Disponível em http://www.rizoma.net/interna.php?id=140&secao=neuropolitica

[3] Entrevista com Luli Radfahrer, disponível em http://www.luli.com.br/media/0828_groisman.mp3


Dinner with Microsoft

Published on 02:25, 03/20,2009

Dinner with Microsoft is like dinner with Hannibal Lecter, it might provide you with many a stimulating and intellectual conversation, but, you have to ask yourself, what was their real motivation in inviting you over?

Richard Stallman


Palavras de Jiddu Krishnamurti

Published on 06:00, 03/13,2009

Embora haja atualmente tanto saber em tão variados campos, isso não faz cessar a brutalidade do homem para com o homem, mesmo entre membros de um mesmo grupo. É possível que o saber esteja nos tornando cego para o que bem pode representar a solução real de toda essa confusão e miséria.

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Estamos acostumados a ser dirigidos pela autoridade e pelo guia. O desejo de ser guiado surge do desejo de segurança, de proteção, e bem assim do desejo de sucesso, bom êxito.

Na nossa ânsia de segurança, não só como indivíduos, mas também como grupos, nações e raças, não construímos um mundo onde a guerra, por dentro e por fora de uma dada sociedade, se tornou a principal causa de apreensão?

A paz é um estado de espírito; é o estado livre de todo e qualquer desejo de segurança. A mente-coração, se busca a segurança, terá sempre a persegui-la a sombra do medo. Nosso desejo não é apenas de segurança material, porém, muito mais, de segurança interior, psicológica. E é esse desejo de segurança, interiormente, por meio da virtude, da crença, ou por meio de uma nação, que cria grupos e idéias cheias de limitações e portanto antagônicas.

Esse desejo de segurança, faz surgir a aceitação de dirigentes, a autoridade dos líderes, Salvadores, Mestre. Estamos procurando compreender o desejo de ser dirigido, não é verdade? que impulso é esse? Não é produto do medo?

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A família como meio de mútua segurança interior é um fator de conflito e confusão.

O amor nunca é segurança; o amor é um estado em que não existe desejo de estar em segurança; é um estado de vulnerabilidade; é o único estado em que a exclusão, a inimizade e o ódio são impossíveis. 

Nesse estado uma família pode tornar-se existente, mas nunca será exclusiva, egocêntrica.

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 Meditação é libertar a mente de toda desonestidade. O pensamento gera desonestidade. O pensamento, no seu esforço para ser honesto, é comparativo e, portanto, desonesto. (…) Meditação é o movimento dessa honestidade no silêncio.




Mais sobre dualismo e cristianismo

Published on 03:56, 03/03,2009

Publiquei o texto do post anterior no site do CMI-Brasil, nesse link. Houve uma pequena discussão interessante, que vou reproduzir aqui:

 Comentário 1

Dualidade e dualismo
Janos Biro 27/02/2009 14:57
janosbirozero@gmail.com
antizero.rg3.net

Olá

Acho que há um ano atrás eu concordaria com este texto. Mas depois de estudar sobre religião eu acho que ele tem algumas brechas.

A começar a dualidade platônica não é entre o bem e o mal, e na verdade Platão não era exatamente um dualista, e afinal ele é pré-cristão, então o erro não seria do cristianismo. Quem instaura a dualidade como a conhecemos hoje é Descartes, mas o cristianismo original não é cartesiano. Quando criticamos o dualismo estamos criticando a idéia de que há duas realidades distintas no universo. Se é tudo é uma coisa só, tudo pode ser explicado por um só método. De qualquer forma a ciência ganha, e embora a física quântica use um pouco de dualidade, o resto da ciência quantitativa se apóia no oposto.

Negar o dualismo não pode ser igual a negar toda e qualquer bifurcação. Algumas coisas simplesmente têm dois lados, como uma moeda. Claro, há um dualismo no cristianismo, mas ele não leva às conclusões do autor. O dualismo é que Deus é absolutamente diferente do mundo físico, e logo não pode alcançado pelo homem com ciência, por exemplo, como o deísmo afirma.

Não acho que este dualismo deva ser rejeitado a priori, o que não justifica o dualismo que o autor critica, é claro.

É o cristianismo que está transvestido de modernidade, ou a modernidade que está transvestida de cristianismo? Há alguns anos atrás houve um surto de cristianismo no Brasil, de neopentecostalismo principalmente, apoiado por expansão do poder midiático das igrejas. Mas é algo muito diferente do que era o cristianismo original, talvez até oposto, segundo muitos teólogos e sociólogos da religião.

Eu concordo que essas igrejas se tornaram comércios. E mesmo os ateus e agnósticos se tornaram sim muito parecidos com estes religiosos, porque no fundo todos estão atrás de dinheiro e poder.

Mas, dizer que não existe verdade absoluta acaba servindo hoje em dia para afirmar que não há verdade de forma alguma, estabelecendo uma relatividade absoluta. Isso também não funciona.

No trecho "O cristianismo é a ideologia do sofrimento, da martirização, da negação da vida, do autoritarismo, do julgamento e da remissão dos pecados", eu observaria algumas coisas. Cristianismo não é procurar o sofrimento, mas entender que todos vamos sofrer, e saber aprender com isso. Sacrifício é uma parte importante da vida, que nossa sociedade, exatamente pode ser uma sociedade do prazer, do descompromisso e da desconfiança (por ser também do sadismo e da exploração), não aceita. Agora negação da vida? Só é negação da vida se você reduz a vida ao caráter meramente biológico dela, ignorando seu significado para além da ciência. Autoritarismo? Também acho que não, embora a autoridade seja sim um valor para o cristianismo, não é autoridade forçada. Julgamento e remissão dos pecados também tem seu sentido para o cristianismo, mas isso não justifica qualquer julgamento, apenas o julgamento divino.

Um cristão não pode dividir as pessoas em pecadores e não pecadores, por conta própria. Só Deus pode fazer isso, e a princípio somos todos pecadores, e nem por isso devemos ser impecáveis, apenas evitar o pecado. A Bíblia não diz que deve-se cortar os laços com quem peca, se este estiver disposto a reconhecer seu erro e mudar. Auto-crítica não é isso também?

Um amigo antropólogo que estuda indígenas brasileiros me falou uma vez de uma sociedade indígena onde tudo, absolutamente tudo, era dividido em dois. Me esqueci o nome das duas palavras, mas funcionava assim, todas as pessoas e coisas são do tipo A ou do tipo B, elas herdam isso de nascença, pela herança paterna ou materna, não me lembro, e a pessoa de um tipo não pode casar com uma pessoa do mesmo tipo, e assim por diante. Eles tem um dualismo, mas não entre bem e mal.

Mas a teologia cristã na verdade nega o dualismo bem/mal, diretamente. Segundo alguns teólogos, o bem é a única coisa que existe, e o mal representa a falta de bem, como frio é falta de calor. A falta absoluta de bem anula a si mesma. Isso é só um exemplo.

Grande parte dos falsos dualismos que são defendidos hoje não tem origem cristã. Então eu acho que seu texto poderia ficar melhor, sem essas associações precipitadas. Quer criticar o dualismo? Pode criticar. Quer criticar o cristianismo? Pode criticar. Quer criticar as duas coisas ao mesmo tempo? Isso é bem mais complicado.

Abraços

Janos

Comentário 2

Exato
humilde 27/02/2009 20:32

Creio que Juno matou a parada!Jesus cristo pregou a vida em abundancia, e seu ponto de partida e' de um pai amoroso que se sacrifica pelo seu filho.O verdadeiro cristâo da' a vida pelas geracoes futuras!Misericordia e piedade para aqueles que se arrependem de seus erros!

Comentário 3

Cristianismo Libertário
Kaiser 77 28/02/2009 19:34
http://cesarcrash.blogspot.com

Talvez o meu commentário não acrescente nada. Mas também me sinto na obrigação de dizer que sofrimento, martirização,negação da vida e autoritarismo, pode ter muito a ver com os ensinamentos de religiões, igrejas ou pregadores, mas nada tem a ver com o cristianismo puro e autêntico. Sobre o julgamento, manter distância dos outros, isso é justamente o oposto dos ensinamentos de Cristo, que diz que devemos amar a todos, e todos inclui também nossos inimigos. O verdadeiro cristão não é aquele que não peca, mas aquele que reconhece os seus pecados.
E aliás, sobre ateus e agnósticos, acredito que tanto estes como também punks, índios, prostitutas, moradores de rua, têm em geral valores cristãos que hoje faltam, talvez, na maior parte dos que hoje se dizem cristãos.

Comentário 4 (minha resposta)

Dualismo e cristianismo de uma única vez
Oriel Frigo 28/02/2009 19:51

Primeiramente, desculpe pelas generalizações. Esse é um tema que dá muito pano pra manga, e abordá-lo com um texto tão curto acaba por
prejudicar algumas das idéias que pretendi expor.

Quero deixar claro que quando falo em cristianismo, estou me referindo à ideologia disseminada pelo império romano, o cristianismo que conhecemos hoje. Estou ciente de que o cristianismo primitivo tinha um caráter diferenciado, tendendo para o libertário, com influências do gnosticismo e do misticismo oriental. Concordo que o dualismo pregado no cristianismo não tem origem cristã. Pensadores cristãos como Santo Agostinho organizaram a "ideologia cristã" com uma base forte em Platão. Mas convenhamos, o dualismo de Platão é por demais parecido com o da igreja católica, enquanto o primeiro criou a distinção entre "o mundo das idéias" e o "o mundo dos sentidos", o segundo se utilizou dessa mesma base, trocando apenas o "mundo das idéias" pelo "mundo dos espíritos". Tanto em Platão quando no cristianismo, existe a crença numa espécie de pureza do primeiro mundo, divino, intocável pelos humanos, enquanto o "mundo dos sentidos" é considerado sujo, pecaminoso, etc.

Tudo bem, os dualismos constituem as bases para diversas religiões e filosofias, mesmo nos budistas ou em Schopenhauer, iremos encontrar essa distinção entre fenômeno e coisa em si, sendo sempre o mundo dos fenômenos desvalorizado e o da coisa em si aquilo que é intocável e imutável. Respeito essas crenças, mas acredito que o mundo dos opostos muitas vezes funcione como uma espécie de atração perigosa, assim como o próprio racionalismo desenfreado. Enquanto acreditamos em um dos lados, estamos sujeitos a atitudes dogmáticas e totalitárias, que frequentemente tem nos levado a abstrações rígidas e desumanas como Estado, Igreja, Poder. Não acredito que devamos sucumbir a um relativismo absoluto, mas acho que precisamos de boas doses de relativismo e de visão transdisciplinar para superar alguns dos maiores erros de nossa civilização. A coisa é tão profunda, que mesmo dentro do movimento anarquista, observamos várias pessoas pregando uma dicotomia. Por um lado, existiria o "anarquismo social" , do outro o "anarquismo individual ou de estilo de vida". Alguns defendem que o primeiro é o legítimo anarquismo, o verdadeiro caminho a ser atingido para alcançar a revolução social, outros acreditam o inverso. É tão difícil assim enxergar que dicotomias como indíviduo X coletivo nos levam a uma polarização onde os dois extremos acabam por ser incompletos? O ser humano não é nem um ser apenas individual, nem apenas um produto social, é ambos. Vários campos da ciência e filosofia tem aberto essa discussão, estudando conceitos aparentemente opostos como "parte X todo" ou "onda X partícula" ou ainda "corpo X mente". A conclusão está sempre tendendo para o seguinte:

a) A parte não pode ser eficientemente compreendida unicamente e isoladamente, e nem o todo. No fim das contas, segundo biólogos como Humberto Maturana em seus estudos de organismos vivos, o todo é mais do que a simples soma das partes e cada parte contém uma espécie de princípio do todo. Isso curiosamente pode se aplicar a relações parte-todo tão distintas como indíviduo-sociedade, organismo-corpo, átomo-molécula, molécula-célula.

b) Diversos físicos acreditaram que o nível mais fundamental da matéria se comporta como uma partícula, com propriedades físicas como massa e carga elétrica. Com o estudo da luz e a descoberta de que a velocidade e posição das partículas se comportam de forma não determinística, como uma onda de probabilidades, os cientistas passaram a acreditar que elétrons, mésons seriam ondas. Hoje se acredita que ambos sejam corretos, dependendo do referencial do observador.

c) Doenças como câncer não podem ser consideradas nem como sendo uma patalogia puramente corporal e nem como puramente mental. A medicina oriental há milênios desconhece a separação corpo-mente, e trabalha a cura a partir de uma perspectiva psicossomática.

Negação da vida e ideologia do sofrimento

Quando falo em negação da vida, isso se refere ao termo que Nietzsche trabalhou, o fato do cristianismo romano ter travado uma guerra contra os instintos humanos, contra o sexo, os prazeres, a alegria de viver, a espontaneidade. O prazer até é permitido em algum ponto, mas sob severas limitações.
No fundo isso é uma consequência daquele velho dualismo de Platão, que enxerga o mundo dos sentidos (por acaso o mundo em que vivemos), como algo pecaminoso.
Para entender o que quero dizer com ideologia do sofrimento, basta pensar no símbolo máximo do cristianismo. Um homem completamente ensaguentado, flagelado, pendurado numa cruz. Esse símbolo representa um ideal a ser atingido, a martirização.Trata-se de uma imagem que faz seus seguidores sentirem culpa, sentirem-se reponsabilizados pelo assassinato de seu santo. Não falo isso como um espectador que conhece vagamente a ideologia cristã. Fui educado por uma família rigidamente católica, inclusive por catequistas. Encarei dentro da família uma censura contra a diversão, a alegria e o sexo. Os únicos valores dignos são o trabalho, o sofrimento, o doar-se pelo próximo. E o mais fantástico, é que o essencial na defesa desses conceitos é a imagem. Mesmo os mais ferrenhos luteranos, vangloriando a imagem do trabalho, no fundo é sempre possível perceber que eles não amam tanto assim trabalhar. Eles amam a imagem do trabalho. Assim como tantas pessoas não amam tanto assim doar-se ao próximo, mas estão fascinadas pela imagem que passam aos outros e principalmente a imagem que passam para Deus, que estará julgando no purgatório *. Uma vida baseada na repressão e em castrações, segundo Wilhelm Reich, causa diversas "sequelas" no âmbito social/político. Não é por acaso que na ficção de George Orwell, 1984, o sexo e os instintos são mantidos em controle, para que a sociedade possa dedicar todo o esforço ao estado e à obediência cega.

Diversos pensadores dialético-materialistas como Bakunin, defenderam que o que impossibilita os cristãos de lutarem por um "mundo terreno" mais justo, é a crença de que as injustiças sociais são naturais, frutos do pecado original de Adão e Eva, e simplesmente não podem ser combatidas. Para muitos cristãos, a revolução irá acontecer, mas no momento da morte, quando será possível encontrar o paraíso utópico, a vida eterna prometida por Cristo. Por isso que religiões mais fundamentalistas como os testemunhas de jeová ou os adventistas, adotam um compromisso de afastamento ou de serem "neutros" nos assuntos políticos "mundanos".

É um desafio criticar tanto o cristianismo como o dualismo de uma única vez, mas ao contrário do que foi colocado, acho que os dois estão muito ligados, a não ser que se esteja falando de interpretações alternativas do ensinamento de Cristo, como levadas a cabo pelos gnósticos ** ou por Tolstoi. O dualismo rígido vem de Sócrates, passando por Platão e Aristóteles mas o cristianismo comprou a idéia. E hoje, diversos grupos que não possuem mais nenhuma ligação com o cristianismo continuam comprando essa idéia. O que enxergamos como resultado são as novas cruzadas da inquisição neoliberal, marxista ou tecnocrática, onde indíviduos são seduzidos pelo dualismo bem-mal, e sempre acreditam estar percorrendo o caminho do bem, enquanto todas as outras crenças e atitudes são o caminho do mal. Isso é um tremendo obstáculo para superarmos nossas diferenças e pudermos finalmente caminhar na estrada da pluralidade.

* Poderia-se ainda discutir que apenas o Deus do antigo testamento julga, e o Deus do novo testamento não parece mais julgar, em vez de um legislador e destruidor de cidades vingativo, Cristo ensinou que Ele agora é apenas puro amor. Mas o foco aqui não são as contradições da bíblia, que aparentemente foram ignoradas pelos cristãos romanos.

** Existe ainda uma interpretação que acredita que Jesus tenha tido vida sexual com Maria Madalena e que praticava yoga tantrico para atingir a "iluminação através do orgasmo cósmico".

Comentário 5
 

Falando sobre falsas dicotomias...
Janos Biro 28/02/2009 20:41
janosbirozero@gmail.com
largue.rg3.net

Eu concordo parcialmente com sua resposta, no sentido de que o que é chamado de cristianismo hoje em dia, ma maior parte das vezes chega a ser anti-cristão.

Porém, a repressão é apenas um dos lados com que o totalitarismo funciona, e foi bom você lembrar de Orwell, pois Huxley escreveu Admirável mundo novo como uma resposta ao 1984, e nele há uma distopia tão ou mais totalitária que a de Orwell, onde no entanto não há repressão, pelo contrário, há liberação sexual, de prazeres e vícios e o mote é: "Não negue-se nada". Acho que a sociedade hoje deixou de ser tão repressiva quanto ela era, e passou a se parecer mais com a distopia de Huxley, pelo motivo que ele mesmo alega: é mais eficiente. A capitalismo exige isso.

Eu sou luterano e eu não vejo o trabalho como algo valoroso por si só. Na nossa sociedade, o trabalho é alienante. Mas antes de conhecer essa perspectiva, eu também julgava conhecer muito bem o cristianismo, e também fui criado num lar católico. Frequentar a igreja não foi suficiente para que eu conhecesse a fé cristã.

Mas de qualquer forma parabéns pelo artigo e pela reflexão.

Abraço

 


Doença ocidental e Cristianismo

Published on 01:58, 02/16,2009

Temos visto uma diminuição pelo interesse no cristianismo nas últimas gerações, mas se fizermos
uma análise mais profunda, vemos que o cristianismo está lá com todos os seus símbolos mais básicos, apenas transvestidos com outras máscaras.
Parece estranho ouvir que vivemos em uma sociedade cristã, pois todos sabemos que a sociedade moderna ocidental tem seus valores máximos fetichizados sob a forma do consumo, pois nossas igrejas são os shopping centers, nossas orações são os jingles repetidos pela
televisão tão exaustivamente como mantras hindus, ou como ave-marias em um terço católico.
Mesmo entre ateus e agnósticos temos visto o cristianismo impregnado em seus discursos, principalmente sob a forma de dualidades do tipo bem-mal ou sob a crença em alguma verdade absoluta, que é alcançada por algum indíviduo privilegiado.

O cristianismo é a ideologia do sofrimento, da martirização, da negação da vida, do autoritarismo, do julgamento e da remissão dos pecados.
Quantos de nós, assim como cristãos, não estamos sempre dividindo nossos companheiros entre pecadores e não pecadores?
Se algum deles peca, imediatamente cortamos nossos laços interpessoais, e o colocamos na lista de pecadores, aqueles que devemos manter distância, para que possamos preservar nossa "pureza espiritual".


Modestamente, penso que o dualismo reducionista, a divisão binária, só funciona bem para a lógica booleana e a subsequente construção de computadores através de sinais digitais.. E não para a organização social humana!
Não estamos tão presos a ideologias dogmáticas quanto os cristãos medievais, reduzindo e classificando friamente, ao invés de pensar e sentir com o coração?
Porquê não dar um espaço para a espontaneidade e a auto-crítica?

 


Viver cantando

Published on 12:13, 11/11,2008

Cartola“Todo mundo tem o direito
De viver cantando
O meu único defeito
É viver pensando
Em que não realizei
E é difícil realizar
Se eu pudesse dar um jeito
Mudaria o meu pensar

O pensamento é uma folha desprendida
Do galho de nossas vidas
Que o vento leva e conduz
É uma luz vacilante e incerta
É o silêncio do cipreste
Escoltado pela cruz”

(Cartola / Carlos Cachaça)


Metareciclagem: quando o resto vira o novo quociente da divisão

Published on 23:42, 10/13,2008

Um dos desafios de nosso tempo é o que fazer com a crescente quantidade de lixo gerado pelos objetos e tecnologias da vida cotidiana. Pensando nessa questão complicada, a Metareciclagem foi uma iniciativa que surgiu no Brasil, visando dar utilidade prática a componentes de computadores antigos ou estragados. Os coletivos de metareciclagem incorporaram ainda o uso de Software Livre e organizando-se em coletivos horizontais, como redes de cooperação mútua.

Porém, o passo mais importante a se dar, é concretizar práticas de reciclagem na vida cotidiana. Basta pensar um pouco antes de atirar no lixeiro aquele objeto que a primeira vista parece desnecessário. Dois exemplos feitos pela Bruna:

 

Porta-canetas modernista

Materiais:

- 2 rolos de etiquetas (ou fita adesiva)

- Uma tira de fita crepe

- Imagens para decorar (quadros do Kandinsky são uma boa escolha)

 

Antes:

 

Depois de pronto:

 

 Utilizando:

 

 

Luminária feita com CD's

Há algum tempo o Gustavo me deu uma caixa de CD's da versão 5 do Ubuntu GNU/Linux, que não consegui distribuir pois a versão já estava bem ultrapassada. Não me desfiz dos CD´s pois sabia que alguma hora surgiria uma idéia do que fazer com eles. Não deu outra, a Bruna deu um jeito.

Materiais:

- Cerca de 50 CD's

- Um cabo de cobre

- Um interruptor do tipo que desliza

- Uma tomada (pinos de alimentação)

- Um bocal de lâmpada

- Uma lâmpada (de preferência fria)

- Uma caixa (de madeira ou papelão) para a base

 

Corte os CD's em algum formato padronizado, por exemplo um triângulo. É importante que se tenha em mente o tamanho da lâmpada, assim cortando os CD's de forma que a lâmpada caiba no meio deles.

Para isso, utilize uma serra de marceneiro, e nâo esqueça de lixar para tirar as farpas:

 

Conecte o bocal, a tomada e o interruptor ao cabo de alimentação:

 

 Utilize algum tipo de material com pouca espessura para colocar entre as camadas verticais de CD's, distanciando-as de acordo com a espessura do material. Utilize alguma cola forte como super-bonde para colar os CD's. Encaixe o bocal na base e em seguida cole o fundo das camadas de CD's na mesma. Se preferir, cole um papel decorativo na superfície. Encaixe a lâmpada e está pronto:

 

 Utilizando:


Nesses tempos de eleições...

Published on 20:11, 09/30,2008

... exalta-se a suposta democracia, através de belas propagandas comemorando o fantástico direito de votar. A utilização de uma atriz grávida nas propagandas que exaltam as eleições certamente não é casual, a imagem de uma barriga avolumada por um feto em desenvolvimento espalha os memes de que um novo Brasil, ainda em gestação, pode ser construído através do voto. É lógico que isso tudo vem acompanhado de roupas brancas, sorrisos e discursos emocionantes e uma bela música que poderia ter saído de uma das novelas da Rede Globo.

Democracia é um desses conceitos abstratos que é utilizado com diferentes intenções e significados, apesar da definição formal ser bem clara: a possibilidade de participação e decisão da população na gestão dos bens e serviços públicos.

Todas as propostas dos candidatos que concorrem aos cargos de gestão pública são iguais: investimentos em educação, saúde, segurança, cultura, lazer, transporte público. Porém, depois de eleitos, abafam, com o uso de força policial, qualquer reivindicação popular de melhoria para alguma dessas áreas. Não é nem preciso citar a podridão que existe por trás de tudo que os políticos realizam depois de eleitos, pois até mesmo a Globo já tem realizado bem essa tarefa. O que a grande mídia esquece de dizer, é que o esquema já começa podre desde as eleições, e que não é mais possível dizer se o mais podre são as pessoas ou o modelo. De qualquer forma, o modelo é formado e regido por pessoas, e como diriam os estudiosos da Teoria Geral de Sistemas / Complexidade, em um sistema dinâmico não há nenhuma parte desconexa, todos os componentes estão em intensa interação, modificando e sendo modificados de acordo com a função do sistema. No caso do sistema que representa nosso modelo nacional e planetário de gestão de recursos (humanos ou não), qual a função dele? Perpetuar sua própria existência?

Há 2 anos o Centro de Mídia Independente de Joinville redigiu esse texto e distribuiu pelas ruas da cidade no periódo das eleições, afim de demonstrar que o modelo representativo de gestão não é tão democrático quanto parece nas propagandas. Parafraseando o texto citado, votar nulo não significa fazer algo para mudar o problema, significa apenas reconhecer que o problema existe.  

Por não acreditar que o modelo vigente seja democrático, tenho anulado meu voto nas últimas eleições, porém no caso da eleição atual em Joinville, considero a hipótese de votar no segundo turno, especialmente para evitar a vitória de Darci, que como presidente da câmara de vereadores demonstrou toda sua falta de bom senso.

O modelo de transformação proposto em Bolo'BoloÉ preciso ter os pés no chão e perceber que nem tudo é do jeito que idealizamos, mas também é preciso sonhar e agir.


Para @s romântic@s e apaixonad@s que querem sonhar e receber sugestões mais profundas de como iniciar a resolução do problema, leiam  Bolo'Bolo , um manifesto anônimo muito inspirador!


Resposta, de Frederic Brown (1954)

Published on 04:49, 09/11,2008

    Dwar Ev soldou solenemente a junção final com ouro. A objetiva de uma dúzia de câmeras de televisão se concentrava nele, transmitindo a todo o universo doze enquadramentos diferentes do que estava fazendo.
Endireitou o corpo e acenou com a cabeça para Dwar Reyn, indo depois ocupar a posição prevista, ao lado da chave que completaria o contato quando fosse ligada. E que acionaria, simultaneamente, todos os gigantescos computadores da totalidade dos planetas habitados do universo inteiro - noventa e seis bilhões de planetas - ao supercircuito que, por sua vez, ligaria todos eles a uma supercalculadora, máquina cibernética capaz de combinar o conhecimento integral de todas as galáxias.
    Dwar Reyn dirigiu algumas palavras aos trilhões de espectadores. Depois de um momento de silêncio, deu a ordem:
- Agora, Dwar Ev.
Dwar Ev ligou a chave. Ouviu-se um zumbido fortíssimo, o surto de energia proveniente de noventa e seis bilhões de planetas. As luzes se acenderam e apagaram por todo o painel de quilômetros de extensão.
Dwar Ev recuou um passo e respirou fundo.
- A honra de formular a primeira pergunta é sua, Dwar Reyn.
- Obrigado - disse Dwar Reyn. - Será uma pergunta que nenhuma máquina cibernética foi capaz de responder até hoje.
Virou-se para o computador.
- Deus existe?
A voz tonitruante respondeu sem hesitação, sem se ouvir o estalo de um único relé.
- Sim, agora Deus existe.
O rosto de Dwar Ev ficou tomado de súbito pavor. Saltou para desligar a chave de novo.
Um raio fulminante, caído de um céu sem nuvens, o acertou em cheio e deixou a chave ligada para sempre.


Recursividade

Published on 01:33, 08/30,2008

Encontramos umas estranhas pegadas nas areias do desconhecido. Formulamos teorias profundas, uma após a outra, para mostrar sua origem. Finalmente, conseguimos reconstruir a criatura que deixou a pegada. E vejam! A pegada é nossa!

Sir Arthur Stanley Eddington


Jogos de crianças

Published on 01:22, 08/22,2008

drooker


O mundo é um palco, mas a peça tem um elenco ruim

Published on 15:26, 08/14,2008

Li essa frase há alguns anos atrás, que mexeu profundamente comigo. Ao contrário do que pode se pensar, ela não foi dita por Baudrillard ou Debord ou Foucault no século XX, mas sim por Oscar Wilde no século XIX. O iconoclasta francês viveu num tempo onde os tribunais franceses condenavam à prisão quem fosse homossexual, e Wilde foi 2 anos encarcerado pelo motivo de simplesmente seguir seus desejos. Em "O retrato de Dorian Gray", através do personagem Lorde Henry, Wilde mostra suas opiniões ácidas a respeito das leis, da moral e da domesticação do espírito humano. Seus pensamentos mais profundos foram expressos através dos aforismos.

Eis alguns dos meus preferidos:

 

"Todo mundo sabe compadecer o sofrimento de um amigo, mas é preciso ter uma alma realmente bonita para se apreciar o sucesso de um amigo"

 

"O mistério do amor é maior que o mistério da morte"

 

"Todos nós estamos na lama, mas alguns sabem ver as estrelas"

 

"Para ocultar a sua própria ignorância as pessoas inventam regras e dão conselhos, assim como sorriem para esconder as lágrimas"

 

"Podemos chegar à perfeição através da arte e somente através dela; só a arte pode nos proporcionar um refúgio contra os sórdidos perigos da vida"

 

"Um primeiro contato que começa com um elogio transformar-se-á certamente em real amizade. Assim, ela nasce da forma mais bonita."

 

"Para qualquer um que conheça a história, a desobediência é a virtude original do homem. É com a desobediência que se realizou o progresso. Com a desobediência e a revolta."

 

"Viver é a coisa mais rara do mundo. Muitas pessoas existem, só isso"

 


A arte e o cotidiano

Published on 19:06, 07/24,2008

" O dadaísmo quis suprimir a arte sem realizá-la; o surreliasmo quis realizar a arte sem suprimi-la. A eposição crítica elaborada desde então pelos situacionistas mostrou que a supressão e a realização da arte são os aspectos inseparáveis de uma mesma superação da arte" 

Este trecho genial escrito por Guy Debord em sua magnum opus "A Sociedade do espetáculo" já me tirou muitas noites de sono. Os situacionistas tinham uma crítica extremamente bem elaborada já nos anos 60, reconhecendo que toda a arte ocidental é um reflexo desta cultura que caracteriza-se como uma esfera separada do cotidiano. A arte como ficou conhecida ao longo dos séculos, presente em lugares construídos especificamente para isso, contém o anceio de liberdade, o anceio de expressão direta, porém, não direcionados ao cotidiano.

Cada movimento artístico surgido a partir do barroco, caracterizou-se por ser a negação do anterior, até se chegar ao dadaísmo, que propôs algo radical: a anti-arte, o fim da arte. A arte, a embriaguez de espírito, como chamava Nietzsche, no século XX passou a ser defendida como característica inalienável de um aspecto inseparável da vida humana, mas dentro das situações de vivência cotidiana, e não nos museus para ser apreciada pela burguesia. 

Essa é uma reivindicação extraordinária, mas como tirá-la dos livros e aplicá-la no cotidiano?

Isso só será possível se ocorresse antes a almejada revolução social, planejada e formulada por tantos marxistas e anarquistas?


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