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5 meses vivendo na França

Posted: January 27th, 2012 | Author: | Filed under: Diario | No Comments »

Ser um estrangeiro é certamente agradável num primeiro momento, por se encontrar um mundo inteiramente novo, mas em seguida descobrimos que este mundo novo é alheio e exige adaptação..

Estação de Saint-Étienne

Estou há 5 meses vivendo em Saint-Étienne, França, e agora que termino meu primeiro semestre de estudos de mestrado, posso escrever com tempo e com a mente tranquila sobre a experiência. Como em qualquer lugar, existem pontos positivos e negativos sobre morar e estudar aqui. Por ironia esta cidade guarda algumas semelhanças com Joinville, tanto pelo tamanho quanto pela cultura. Saint Etienne é uma cidade conhecida por sua expressiva indústria (bicicletas e armamentos) o que a aproxima de Joinville como uma cidade de trabalhadores industriais – em que grande parte das pessoas ocupam suas vidas principalmente do trabalho e dos negócios. Um sintoma direto disso é que as ruas ficam desertas a partir das 9 da noite e um silêncio fantasma toma conta da cidade. Por outro lado, à luz do dia a cidade tem um aspecto acolhedor, com diversos cafés com mesas a céu aberto e belas praças onde as crianças costumam brincar.

Universidade Jean Monnet

Universidade Jean Monnet

A universidade funciona de uma forma que inicialmente me pareceu estranha, sem horário fixo semanal para as disciplinas. Ou seja, a cada semana o número total de aulas e a distribuição destas para cada disciplina é diferente. Durante o semestre, a distribuicão das aulas segue mais ou menos a curva gausssiana: nas primeiras semanas há poucas aulas e apenas na manhã; nas semanas seguintes a quantidade de aulas aumenta gradativamente até chegar ao pico, com aulas todos os dias em todas as manhãs e tardes; e ao fim do semestre a quantidade de aulas volta então a diminuir até chegar aos exames finais. Estudei disciplinas que flertam com o campo da visão computacional e das cores: Algorithm Design and Analysis, Image Processing and Analysis, Color Science, Optics and Photonics e Data Analysis and Statistics. Todas elas apresentam conteúdos que são de grande interesse para mim, mas quando apresentadas em um pacote acadêmico, com a pressão de conseguir notas suficientes para ser aprovado, infelizmente acaba perdendo um pouco a graça.. Mas os momentos passados em laboratórios, reproduzindo experimentos como o prisma de Newton que divide a luz branca em seus componentes coloridos, reanimam o sentimento da descoberta e da curiosidade, que deveriam ser a essência da atividade científica.

Trem Saint-Étienne

Trem de Saint-Étienne

Sobre o trânsito e a mobilidade urbana em Saint-Étienne, há um sistema interessante de aluguel de bicicletas, que inclusive sou usuário, com uma assinatura de 15 euros por ano para utilizar livremente qualquer bicicleta pública quando for preciso. O ponto negativo é que praticamente não há ciclovias para o uso destas bicicletas. O principal meio de transporte público dentro da cidade é o trem, que corta a rua principal de Saint Étienne. Como nesta rua há apenas o trilho de trem em todo seu percurso, ciclistas e motoristas frequentemente se locomovem por esse trilho, tomando cuidado para que não o façam quando o trem está a caminho – o que é certamente arriscado para os ciclistas, mas é a única opção em alguns casos.

Estou morando em uma residência universitária chamada La Cotonne, em uma kitnet de 9 metros quadrados. Pela primeira vez estou pagando minhas contas, fazendo minha própria comida e lavando minhas roupas – o sentimento de independência financeira é positivo e gratificante. A residência tem pontos positivos, como a cozinha compartilhada, onde é possível conhecer pessoas diferentes e o ambiente acaba lembrando as tradicionais cozinhas de hostel. Mas esta residência tem alguns problemas sérios que me deixaram desapontado. Em nome da “boa convivência”, não se permite que faça qualquer barulho nos quartos após as 11 da noite. Há um inspetor que controla os quartos, e caso eu esteja conversando com alguém ao telefone, por exemplo, ele irá bater na porta e me pedir para parar de falar. Outro ponto no mínimo bizarro é que estes mesmos inspetores da residência possuem chaves de todos os quartos e inspecionam os quartos para verificar se estão limpos ou arrumados. Na semana das minhas provas finais, em que apenas estudei e o quarto virou uma bagunça, um dia me deparo com um bilhete deixado em meu quarto onde estava escrito “vous devez netoyer votre chambre” (você deve limpar seu quarto). A Internet na residênia é também estritamente controlada, sites de compartilhamento de arquivos, torrent, p2p e sites de conteúdo erótico são todos bloqueados.

Fico imaginando se isso ocorre apenas nessa residência, que talvez seja administrada por algum fascista paranóico, ou se este tipo de prática é também comum em outras residências universitárias. Ao me deparar com essas condições, em que a privacidade é anulada em detrimento de um “bem maior social”, não me impressiona terem sido franceses, Foucault e Deleuze, dois dos filósofos que mais criticaram o surgimento de uma sociedade disciplinar e de uma sociedade de controle.

Manifestantes imigrantes

Estas questões nos aproximam também do que pode ser considerado o principal problema social que atinge atualmente toda a França, incluindo Saint-Étienne – o problema da imigração, principalmente de países árabes. O estado francês tem sido acusado de políticas duras e por vezes fascistas contra imigrantes, como colocá-los dentro de trailers e os despejarem para fora do país. Foi polêmica também a proibição do uso da burca que deixa apenas os olhos das mulheres à mostra. Eventualmente observo em Saint-Étienne passeatas de movimentos de apoio aos imigrantes, pedindo mais justiça e denunciando casos deste tipo.

Em último lugar, e não menos importante a se colocar, o que realmente pesa por aqui para mim é a solidão e por vezes a falta de comunicação (não tenho oportunidade de falar em português com frequência). Ter deixado os amigos e a família e partir para um lugar com uma língua e cultura diferentes é um grande desafio. Mas encaro com força e determinação, pois como muitos dizem, aquilo que não nos mata nos faz mais fortes. Minha amada também está a caminho, o que me tranquiliza e me prepara para uma lua de mel francesa!


Tristeza e beleza

Posted: December 18th, 2011 | Author: | Filed under: Filosofia, Pseudo-poesia | No Comments »

Qual a relação entre a tristeza e a beleza?

Costuma-se chamar de melancolia o sentimento associado a uma aparente fusão destas duas.

Poderíamos de alguma forma associar a melancolia à finitude humana, à morte que nos espera, à impossibilidade de acharmos algum sentido último para a existência.

Se através da lógica, dos questionamentos racionais e da ciência não conseguimos respostas, a tristeza que brota dessa impossibilidade se realiza na contemplação do irracional. O irracional é o epicentro de toda arte e de toda religião. Pense na arte como a religião dos descrentes, ou na religião como a arte dos crentes.

Como inspiração, segue um vídeo de Erik Satie em suas melodias misteriosas, somadas às animações surreais de Raoul Servais:


O ceticismo frente à Wilhelm Reich

Posted: July 27th, 2011 | Author: | Filed under: Ciência, Filosofia, Política, Psicologia | 3 Comments »
Wilhelm Reich

Wilhelm Reich

Como admirador de uma parcela significativa da obra de Wilhelm Reich, me sinto no dever de expor alguns equívocos do texto de Richard Morrock – Pseudo-Psicoterapia: OVNIS, Cloudbusters, Conspirações e Paranóia na Psicoterapia de Wilhelm Reich - cuja tradução foi publicada recentemente no site Ceticismo Aberto. O artigo carrega consigo inconsistências que iniciam pelo próprio titulo: Pseudo-psico-terapia, o que autor deseja afirmar com este termo? Acreditaria ele na existência de psicoterapias verdadeiras e psicoterapias falsas? Pois bem, sabemos que no meio cético é comum classificar como pseudociência toda teoria que apesar de fazer uso de termos científicos, não possui qualquer validação através do método científico. É simples caracterizar alguma ideia como pseudocientífica, uma vez que temos critérios rígidos para definir o que é a ciência a partir de seu método de experimentação, comprovação e repetição. Mas quanto à psicoterapia, como afirmaremos se ela é verdadeira ou falsa, uma vez que não existe qualquer método procedural de refutação nessa área, seu resultado depende de critérios subjetivos e frequentemente apoia-se em valores metafísicos? É principalmente o sujeito quem irá poder responder se uma terapia funcionou ou não. Podemos apenas recorrer aos relatos e à estatística – com quantos indivíduos a terapia funcionou? Mesmo o efeito placebo – a crença na terapia – pode ser um indicador de sucesso quando estamos tratando de terapias que não se apoiam em valores científicos, desde as ocidentais como a Psicanálise¹, a Gestalt-Terapia e a Bioenergética, até as orientais, como a Acupuntura.

Sigmund Freud

Sigmund Freud

A partir dessa constatação, podemos observar que apesar do artigo ter saído de uma revista de ceticismo, ele não segue o procedimento típico de um bom artigo cético, que busca desqualificar um fato ou uma idéia “pseudocientífica” através de provas científicas. Trata-se na verdade de um artigo que apresenta críticas sem referências, e que ao tentar atacar Reich e os reichianos ao mesmo tempo – há tanta diferença nestes quanto há em relação a Marx e os marxistas – não completa nenhuma das duas tarefas com seriedade.

De início, o que vemos é uma biografia reichiana seguida de uma observação de caráter sociológico sobre uma suposta contradição na “prescrição revolucionária de Reich”, o que me parece um dos pontos mais problemáticos do artigo:

“Apesar de seus seguidores ignorarem o fato, há uma contradição na prescrição de Reich para a sociedade. Se, como Reich argumenta, a repressão sexual é essencial para a sobrevivência da sociedade classista opressora e se, como ele também afirma, a sociedade classista opressora impõe a repressão sexual, então por onde é que se começa a eliminar a opressão? Não pode ser através da psicoterapia, porque a classe dominante não permitiria, nem pode ser feito através da revolução, porque os trabalhadores sexualmente reprimidos não seriam capazes de criar uma sociedade verdadeiramente livre – basta olhar para a Rússia. Dadas as hipóteses de Reich, progresso social significativo é quase impossível. Não deveria ser surpresa, então, que seu grupo mais ativo de adeptos, o Colégio Americano de Orgonomia, já se afastou das idéias originais esquerdistas de seu fundador e apoia uma variedade linha dura de ultra-conservadorismo.”

Buscar a libertação do indivíduo (eliminar as neuroses autoritárias do corpo, da mente e da sexualidade) ao mesmo tempo em que a libertação na coletividade (lutar por uma sociedade igualitária, sem classes), é certamente uma das maiores contribuições de Reich no campo da luta (psico)social, mas para o autor esta é uma contradição sem solução, pois seria necessário se iniciar por algum lugar. Começar por algum lugar é preciso, mas isso não implica na impossibilidade de se trilhar caminhos simultâneos – isto é tão óbvio quanto perceber a possibilidade (e necessidade) de conciliar uma vida pessoal com uma vida pública. O autor acaba caindo então em sua própria armadilha quando lembra do fracasso da revolução russa e o atribui justamente à falta de uma revolução sexual, ou seja, uma transformação que se estendesse ao campo do indivíduo e suas relações íntimas.

Adorno e Marcuse

Adorno e Marcuse

Vale lembrar que a fusão de elementos da psicanálise com elementos do marxismo encontrada em Reich foi levada a cabo por uma infinidade de outros autores do século XX, como Herbert Marcuse, Theodor Adorno e Raoul Vaneigem. Se para Morrock esta junção é uma contradição, Reich não seria o único a insistir nela. É certo que as ambições sociais desses autores não chegaram a se concretizar na realidade, assim como as ambições de Rousseau não se concretizaram com a revolução francesa e nem as de Marx com a revolução russa. Com isso, ao contrário de provar uma contradição em Reich, este ponto do artigo nos diz apenas que a libertação social e a superação do capitalismo são tarefas bastante difíceis (o que não é nenhuma novidade para os antagonistas do capital). E por mais que os relatos indiquem um conservadorismo em muitos reichianos estadunidenses, o autor comete um equívoco ao inferir que os seguidores póstumos de Reich iriam sempre abandonar a política de esquerda pelas contradições políticas de sua proposta de revolução sexual. No Brasil, por exemplo, nos anos setenta surge a somaterapia, unindo elementos da psicoterapia reichiana, com a crítica ao autoritarismo, a defesa do anarquismo e a capoeira de Angola – vista como uma dança de resistência.

Um mérito que reconheço no artigo está em acertar na identificação do que eu costumo caracterizar como o maior problema de Reich: sua insistência em combater o misticismo ao buscar transformar sua versão² da psicanálise em uma ciência, mas ironicamente terminar em uma espécie de jornada mística. Reich, como marxista tinha o materialismo (histórico/dialético) como valor determinante na composição não apenas social mas também psíquica. A descoberta do orgônio pode ser vista então como a resposta encontrada por ele para justificar seus anseios materialistas. O orgônio seria a energia sexual (a mesma “libido” ou “id” de Freud) que Reich alegava a possibilidade de ser medida por aparelhos eletrônicos ou vista a olho nu, constituindo assim seu aspecto material – físico e biológico.

Representação dialética da energia orgônica

Representação de Reich da energia orgônica

Se existe um ponto controverso nas ideias de Reich e que merece especial atenção dos céticos, sem dúvida é o orgônio. Morrock, ao pretensamente escrever um artigo cético, poderia ter dado mais atenção à questão do orgônio, mas preferiu o clichê de explorar a “ficção científica” de um livro não publicado de Reich contendo especulações sobre os UFOs (e escrito em seus anos mais difíceis e paranóicos), ou ainda, de relatar a opinião obviamente muito negativa de uma celibata, Anna Freud, sobre Reich, que era um ativista da revolução sexual. Já que o caráter pseudocientífico do orgônio foi negligenciado pelo artigo de Morrock, vou eu mesmo adotar uma postura cética e explorar brevemente esta interessante questão.

Reich manipulando cloudbuster

Reich manipulando cloudbuster

Segundo James DeMeo, os orgonomistas possuem estatísticas, documentadas em diversos trabalhos acadêmicos, em que aparentemente provam o funcionamento de cloudbusters baseados no orgônio, manipulando o clima e trazendo chuva para desertos. Mas a existência do orgônio continua tão questionável quanto a existência do inconsciente freudiano, ou do inconsciente coletivo de Jung. Por mais que Reich afirmasse ter medido e ter visto o orgônio, descrito por ele como partículas cintilantes de cor azul, se estas medições físicas realmente procedessem, a orgonomia teria se tornado uma bela ciência. Porém, Reich não submeteu nenhum artigo descrevendo seus experimentos e os justificando cientificamente, ainda que curiosamente, achava estar fazendo ciência. É provável que ele soubesse que apesar de todos os seus esforços, não possuía meios teóricos e empíricos suficientes para tornar a orgonomia em uma ciência e esta seria a fonte de sua paranóia – a impossibilidade de seu projeto de vida. Chegou a pedir ajuda a Albert Einstein, em uma reunião realizada entre os dois em 1941, onde apresentou os princípios da orgonomia e espantou o físico da relatividade ao demonstrar o aumento da temperatura causado por um acumulador de orgônio. Einstein pediu que Reich deixasse o acumulador com ele para que fossem feitos mais testes, para depois de alguns dias escrever uma carta informando o encerramento da questão, ao explicar que o aumento de temperatura ocorrera pelo fenômeno de convergência (os movimentos de ar quente e frio entre o plano horizontal da mesa na sala onde se realizavam as medidas) e não pela ação do acumulador. Reich respondera que a convergência não justificaria o fenômeno, alegando que o aumento de temperatura ocorria em diferentes condições. Einstein, por sua vez, não respondeu mais às cartas, apesar dos elogios que Reich fez ao físico em suas cartas:

“Excetuando meus colaboradores franceses e escandinavos, o senhor é o único homem de ciência que encontrei no decorrer dos últimos doze anos que compreendeu a base física de minha teoria biológica, a saber: o desenvolvimento das vesículas de matéria orgânica pela ação da energia que se desprende da matéria.”

Do ponto de vista físico, é interessante que a noção de orgônio irá se encontrar com a já abandonada ideia científica de éter. Por muito tempo os físicos consideraram a existência do éter como o meio desprovido de forma ou matéria necessário para que a onda de luz vibrasse. A ideia foi abandonada quando a teoria da relatividade restrita (em que Einstein apresenta sua equação clássica utilizando a velocidade da luz como constante) desconsiderou a necessidade do éter. Ironicamente, com a relatividade geral (a aplicação da relatividade restrita à gravidade com a descrição matemática da curvatura do espaço-tempo), Einstein viria a trazer o éter de volta à cena, dizendo: “De acordo com a teoria da relatividade geral, um espaço sem éter é impensável”. Mesmo com esta afirmação, o éter deixou de ser um interesse na física, dada a impossibilidade empírica de seu estudo. O éter se configura então como um estranho fantasma que vem e volta, que não pode ser diretamente medido e por isso especular sobre sua existência – assim como no caso do orgônio – seria um trabalho a cargo dos metafísicos, e não dos cientistas.

Albert Einstein

Albert Einstein

Por fim, é importante notar que no último parágrafo do texto de Morrock, este nos dá a entender que toda a obra de Reich deva ser invalidada por conta de suas paranóias nos seus últimos anos de vida, em que já havia sido expulso e perseguido por diversas instituições. Tal atitude é tão suspeita quanto sugerir que deveríamos também invalidar toda a obra filosófica de Nietzsche ou toda a obra matemática de John Nash (cujo a vida foi narrada no filme Uma Mente Brilhante) por terem sido também vítimas de suas vaidosas paranóias.

Notas

¹ – É evidente que a psicanálise, com suas analogias poéticas de fenômenos psíquicos a partir de figuras da mitologia grega (Édipo, Eros ou Thanatos) situa-se em um terreno mais próximo da filosofia do que da ciência. O bom senso nos permite identificar a limitação da ciência (ao menos em seu estado atual) quando estamos tratando da psique ou da subjetividade, por mais que o ceticismo em sua vertente dogmática não admita. Nao seria por acaso que o comportamentalismo buscou tornar a psicologia em uma ciência a partir da negação da existência da mente e da subjetividade.

² – Reich criou sua própria versão da psicanálise ao romper com Freud por volta de 1934, pois discordava do princípio de Thanatos (pulsão de morte) dualizando o inconsciente juntamente ao princípio de Eros (pulsão sexual, de vida). Enquanto o princípio de Eros já havia sido bem documentado na psicanálise sob a figura do “id” – a energia desejante da sexualidade – por meio de seus estudos Freud chegou a conclusão que o inconsciente desejaria também a morte e a destruição através de um princípio oposto, que identificou com Thanatos, o deus grego da morte. Para Reich, isso era inaceitável, pois afirmar uma tendência natural para o desejo da morte, da destruição e da violência significaria a impossibilidade da realização de seus ideais pacíficos e comunistas. Reich preferiu insistir na existência de apenas uma energia desejante de vida, que a chamou de orgônio, sendo o desejo de morte não uma tendência natural, mas a corrupção do orgônio pela sociedade repressora e autoritária – em suma, esta era uma crença na bondade natural humana, o bom selvagem de Rousseau. Ironicamente, em 1956, ano de seu processo levantado pela FDA (Foods and Drugs Administration) Reich iria voltar atrás e concordar com Freud no princípio de Thanatos, ao afirmar que havia detectado a presença de DOR (deadly orgone – orgônio mortal) no polêmico experimento ORANUR, em que teria submetido o orgônio a elementos radioativos e teria descoberto uma energia anti-biológica, de natureza contrária ao orgônio.

Referências

Somaterapia – http://www.somaterapia.com.br/soma.jsp

DADOUN, Roger. Cem flores para Wilhelm Reich. (Neste livro o encontro de Reich e Einstein é descrito detalhadamente)

DEMEO, James. RESPONSE TO RECENT ARTICLES IN SKEPTIC MAGAZINE – http://www.orgonelab.org/skeptic.htm

OLIVEIRA, José Guilherme. História do conceito de Éter – http://www.orgonizando.psc.br/artigos/hst-eter.htm

MARTINS, Roberto. Espaço, tempo e éter na teoria da relatividade – www.revistapesquisa.fapesp.br/pdf/einstein/martins.pdf


Uma tentativa de recomeço

Posted: July 14th, 2011 | Author: | Filed under: Diario | No Comments »

Faz muito tempo que não escrevo por aqui. Acho que esses últimos meses têm sido difíceis para que eu conseguisse tirar um tempo para isso. Analisando melhor, a questão não se trata exatamente de tempo, mas de energia, uma vez que a jornada de trabalho dupla que acabei por aceitar esse ano me tirou boa parte da energia disponível. Assim, minha produtividade enquanto indivíduo se resumiu basicamente a escrever códigos de computador para os meus patrões. A partir dessa situação de 12 horas de trabalho por dia, pela primeira vez senti na prática o papel amortecedor que a televisão possui em nossa sociedade. Chegar em casa depois de um dia de trabalho e não conseguir fazer mais nada além de ficar sentado em frente a uma tela. Bem vindo ao mundo real.

Por algum motivo que não posso explicar exatamente, depois de ter terminado no ano passado minha graduação em ciência da computação, resolvi continuar meus estudos fora do país. Talvez fosse uma necessidade de respirar ares diferentes, ver a paisagem de um ponto de vista que não fosse o ar industrial de Joinville. Encontrei então um curso de mestrado em Saint Etienne-França que se encaixava perfeitamente nos meus interesses de pesquisa, na área de cores e visão computacional. Infelizmente não consegui nenhuma bolsa até o momento, o que me levou à decisão de trabalhar em jornada dupla para juntar dinheiro e assim me sustentar durante meus estudos.

As experiências que tive com o mercado de trabalho foram a confirmação de que eu iria seguir uma carreira acadêmica. O mercado de trabalho, como o conheci, respira sem pudor as contradições do capitalismo e apenas reproduz essa ordem, onde pessoas são números e você precisa escolher entre ser o explorador ou o explorado. Não que a academia não tenha seus problemas (no meu ponto de vista crítico ao autoritarismo e a burocracia), mas me parece que as possibilidades são mais interessantes em um ambiente acadêmico onde a produção e a pesquisa não estejam totalmente voltadas ao lucro. Claro que essa decisão de seguir carreira acadêmica foi também influenciada pelo meu interesse por ciência, filosofia e arte, principalmente sob um horizonte de possível mistura desses interesses, como temos feito com o grupo MuSA.

Acho que vale comentar que a experiência de partir é um tanto confusa. O que vai, o que fica? Serei a mesma pessoa em outro lugar? Seria covardia deixar sua cidade em busca de outro lugar em vez de ficar e tornar sua cidade um lugar melhor?

Mas olhando por outro lado, tenho impressão de que essa não é a primeira vez que estou partindo. Mesmo vivendo em um mesmo lugar, estamos sempre chegando e partindo, conhecendo novos territórios, pessoas, amores e idéias, para em seguida nos despedirmos e reiniciarmos nossa viagem.


Zumbi somos nós!

Posted: November 23rd, 2010 | Author: | Filed under: Cinema, Joinville | No Comments »


Caindo na estrada

Posted: August 27th, 2010 | Author: | Filed under: Musica | No Comments »

I’m gonna stay young until I dieeeee!


Violência Policial na Udesc

Posted: July 16th, 2010 | Author: | Filed under: Diario, Joinville, Mobilidade | No Comments »

Ao longo do mês de maio ocorreram quase todos os dias manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus em Florianópolis, movimentando milhares de pessoas contra a indústria do transporte coletivo. No dia 31 de Maio, policiais invadiram o Campus da Udesc e agrediram estudantes com gás de pimenta, cacetetes e choques elétricos. Tratava-se de uma manifestação pacífica de 150 estudantes e populares contra o aumento das tarifas de transporte coletivo em frente ao portão da instituição de ensino. Durante a invasão policial estudantes que estavam nas dependências do campus universitário foram agredidos e 5 pessoas foram presas.

Em uma entrevista concedida após o violento espetáculo, o Tenente Coronel Newton Ramlow (responsável pela ação policial), afirmou que "a ação foi um tapinha na bunda no movimento, como que um pai dá em um filho para que ele se organize e não repita o vandalismo da ultima quinta onde vidros do banco Santander e BESC foram quebrados" [1]. A partir desta afirmação, faço algumas reflexões sobre o papel da polícia em uma sociedade falsamente democrática, que em última instância parece buscar o controle por meio de metamorfoses constantes. Ao realizarmos bem nosso papel de consumidores, exercendo a liberdade, a igualdade e a fraternidade através do consumo, a sociedade nos parece mansa e nos garante até mesmo uma liberdade de expressão ilusória. Mas em alguns momentos, principalmente por meio da ação policial, há uma metamorfose para a violência, que traz a possibilidade de se desmascarar a ilusão de que existe liberdade de expressão [2]. O poder não pode ser encarado como o estado ou a corporação, mas como
uma entidade híbrida alimentada por uma defesa recíproca de interesses entre
ambas as instituições, com o único compromisso de garantir sua própria
sobrevivência.

A afirmação por parte do tenente de que a polícia estava agindo como um pai protetor, mais do que uma justificativa sem sentido para desmobilizar os manifestantes através de violenta repressão, nos leva diretamente à noção de biopoder [4]. O poder que assume a posição de controlar a vida em seus aspectos mais básicos através de toques de recolher, medidas corretivas, ou como o tenente mesmo diz, "tapas na bunda do movimento". Se a família enquanto instituição fracassa em "educar" suas proles segundo os valores da moral e da obediência, e os tapas que os pais dão nos filhos não são o suficiente, o estado se presta à função de realizar esta tarefa.

Em contato com Y. , um amigo de Florianópolis que participou das manifestações, ele me garantiu que em nenhum momento o movimento tomou a postura de quebrar os vidros dos bancos, tendo sido este um caso isolado, muito provavelmente de pessoas infiltradas [3].

Como estudante (formando) da Udesc em Joinville, quero expressar meu repúdio pelo ocorrido, e relatar que eu e mais alguns amigos fomos procurar a imprensa do Centro de Ciências Tecnológicas da Udesc Joinville e o Danma (Diretório Acadêmico) para que se manifestassem contra o absurdo que foi a invasão e prestassem solidariedade. Infelizmente a imprensa não realizou nenhuma publicação sobre o assunto, mesmo com nosso pedido. Os integrantes da chapa atual do Danma também não se demonstraram interessados, e alguns deles chegaram inclusive a defender a ação policial. Tivemos que conversar com a Dani, presidenta do DCE da Univille, para participar da reunião do Danma e relatar sua participação em uma das manifestações em Florianópolis, dando uma ideia diferente daquela que é passada pelos mentores intelectuais (dentre eles Luiz Carlos Prates) dos estudantes de engenharia da Udesc.

Desta forma, repudio aqui não só a atitude dos policiais que invadiram a Udesc em Florianópolis, mas também a atitude socialmente deslocada da chapa atual do Danma e da imprensa da Udesc Joinville. Isto caracteriza uma triste falta de solidariedade e total desconexão entre os diferentes centros/campus da Udesc.

[1] Relato do evento de invasão da UDESC – disponível em http://www.fltcfloripa.libertar.org/?p=220#more-220

[2] À respeito da violência policial e pseudo-democracia, Howard Zinn nos diz "Liberdade de expressão? Tente e a polícia estará lá com seus cavalos, seus cassetetes, suas armas, para parar você."

[3] Mesmo que a postura de destruir propriedades tivesse sido adotada pelo movimento, tenho uma tendência em acreditar que é impossível cometer violência contra objetos: a violência é um ato sempre cometido contra pessoas, através de agressões físicas ou psicológicas. Quando símbolos da sociedade do lucro como os bancos são quebrados, o que está em jogo são valores que sustentam a sociedade e o poder econômico. E inevitavelmente haverá uma reação verdadeiramente violenta por parte dos mecanismos de defesa desta sociedade, através da força policial. Por exemplo, nos protestos contra o G8 ocorridos em 1999 em Gênova, quando carros foram queimados e redes de fast food foram destruídas, a polícia reagiu com verdadeira violência, assassinando o manifestante italiano Carlo Giuliani.

[4] Biopoder é um conceito criado por Michel Foucault para se referir ao poder exercendo controle diretamente sobre o corpo e a vida humana, incluindo processos como o nascimento, a morte, a produção, a doença, etc. A noção de biopoder relacionada à atuação do estado parece ainda bastante atual e pode ser relacionada também a casos como a farsa da gripe H1N1, como foi feito neste artigo.


Mímesis Mulleriana

Posted: June 29th, 2010 | Author: | Filed under: Cibercultura, Joinville | No Comments »

 

O nome da exposição
Mimesis Mülleriana uma  Plágiocombinação
vem
do conceito de Mimetismo Circular, atribuído à descoberta de
Fritz
Müller em sua observação da flora e fauna.
Fritz
Müller observou que em alguns casos duas espécies se imitam
reciprocamente e ao
se transformarem acabam se assemelhando.
A
metáfora na exposição referencia a natureza processual dos projetos
colaborativos das instalações multimídia resultantes da Oficina de Arte e
Tecnologia. A oficina, promovida durante o primeiro semestre de 2010,
como
evento de extensão do Ceart da UDESC e acolhida pela Fundação Cultural
de
Joinville e pela Casa da Cultura, Galeria de Arte Victor Kursansew,
resultou na
exposição
Mimesis
Mülleriana.
O
prognóstico quanto aos trabalhos que envolvem arte e tecnologia relativo
aos
procedimentos da produção e recepção e circuito exibitivo foi
confirmado. A
maior transformação consiste ainda em como percebemos nossos
instrumentais.

Em 2006 a exposição Emparedados,
no MHSC, focou projetos de instalações interativas que se apropriaram do
histórico e do aparelhamento do museu histórico com seus arquivos e
mobiliário.
As instalações pensadas como site specific se referiam à memória
do
prédio e seu uso no passado como domicílio do governador e de sua
família, e
como gabinete de governo. Estas pretendiam ao meu ver instalar um
dispositivo
poético no visitante sobre a memória do espaço. Eram dispositivos
imateriais,
processuais.

Na exposição processo
Mímesis Mülleriana, agora aberta na Galeria Victor Kursansew,  o
que chama a atenção não são os projetos dos coletivos ou dos artistas
individuais
mas o fato dos próprios artistas eles mesmos serem os potencializadores
do
processo contagiando outros por proximidade presencial. Durante a fase
de
gestação dos projetos a percepção é exacerbada e amplificada por outros
que não
são apenas receptores da proposta poética. Os micro-controladores usados
em
alguns dos projetos apenas controlam estímulos de entrada e de saída.
Mas a
condutividade da poética junto à percepção materializada é que determina
o
“estado obra” em devir. 

Por Yara Guasque


1 de maio

Posted: April 30th, 2010 | Author: | Filed under: Joinville | No Comments »

1 de maio em Joinville tem:

 

 


Software Livre e copyleft na Radio Udesc

Posted: March 16th, 2010 | Author: | Filed under: Cibercultura, Copyleft, Open Source e GNU/Linux | No Comments »

Nesta terça-feira (16 de março) as 9:30 e na quarta-feira as 17:30 estará sendo
transmitida no programa "Bate papo com a ciência" na Rádio Udesc FM uma
entrevista sobre Software Livre e Copyleft feita comigo e com o Alan. Sintonizem em 91,9 MHZ !

Aproveito para indicar este vídeo sobre o Creative Commons, que é uma boa introdução a paradigma do Copyleft: