... exalta-se a suposta democracia, através de belas propagandas comemorando o fantástico direito de votar. A utilização de uma atriz grávida nas propagandas que exaltam as eleições certamente não é casual, a imagem de uma barriga avolumada por um feto em desenvolvimento espalha os memes de que um novo Brasil, ainda em gestação, pode ser construído através do voto. É lógico que isso tudo vem acompanhado de roupas brancas, sorrisos e discursos emocionantes e uma bela música que poderia ter saído de uma das novelas da Rede Globo.
Democracia é um desses conceitos abstratos que é utilizado com diferentes intenções e significados, apesar da definição formal ser bem clara: a possibilidade de participação e decisão da população na gestão dos bens e serviços públicos.
Todas as propostas dos candidatos que concorrem aos cargos de gestão pública são iguais: investimentos em educação, saúde, segurança, cultura, lazer, transporte público. Porém, depois de eleitos, abafam, com o uso de força policial, qualquer reivindicação popular de melhoria para alguma dessas áreas. Não é nem preciso citar a podridão que existe por trás de tudo que os políticos realizam depois de eleitos, pois até mesmo a Globo já tem realizado bem essa tarefa. O que a grande mídia esquece de dizer, é que o esquema já começa podre desde as eleições, e que não é mais possível dizer se o mais podre são as pessoas ou o modelo. De qualquer forma, o modelo é formado e regido por pessoas, e como diriam os estudiosos da Teoria Geral de Sistemas / Complexidade, em um sistema dinâmico não há nenhuma parte desconexa, todos os componentes estão em intensa interação, modificando e sendo modificados de acordo com a função do sistema. No caso do sistema que representa nosso modelo nacional e planetário de gestão de recursos (humanos ou não), qual a função dele? Perpetuar sua própria existência?
Há 2 anos o Centro de Mídia Independente de Joinville redigiu esse texto e distribuiu pelas ruas da cidade no periódo das eleições, afim de demonstrar que o modelo representativo de gestão não é tão democrático quanto parece nas propagandas. Parafraseando o texto citado, votar nulo não significa fazer algo para mudar o problema, significa apenas reconhecer que o problema existe.
Por não acreditar que o modelo vigente seja democrático, tenho anulado meu voto nas últimas eleições, porém no caso da eleição atual em Joinville, considero a hipótese de votar no segundo turno, especialmente para evitar a vitória de Darci, que como presidente da câmara de vereadores demonstrou toda sua falta de bom senso.
É preciso ter os pés no chão e perceber que nem tudo é do jeito que idealizamos, mas também é preciso sonhar e agir.
Para @s romântic@s e apaixonad@s que querem sonhar e receber sugestões mais profundas de como iniciar a resolução do problema, leiam Bolo'Bolo , um manifesto anônimo muito inspirador!
Dwar Ev soldou solenemente a junção final com ouro. A objetiva de uma
dúzia de câmeras de televisão se concentrava nele, transmitindo a todo
o universo doze enquadramentos diferentes do que estava fazendo.
Endireitou o corpo e acenou com a cabeça para Dwar Reyn, indo depois
ocupar a posição prevista, ao lado da chave que completaria o contato
quando fosse ligada. E que acionaria, simultaneamente, todos os
gigantescos computadores da totalidade dos planetas habitados do
universo inteiro - noventa e seis bilhões de planetas - ao
supercircuito que, por sua vez, ligaria todos eles a uma
supercalculadora, máquina cibernética capaz de combinar o conhecimento
integral de todas as galáxias.
Dwar Reyn dirigiu algumas palavras aos trilhões de espectadores. Depois de um momento de silêncio, deu a ordem:
- Agora, Dwar Ev.
Dwar Ev ligou a chave. Ouviu-se um zumbido fortíssimo, o surto de
energia proveniente de noventa e seis bilhões de planetas. As luzes se
acenderam e apagaram por todo o painel de quilômetros de extensão.
Dwar Ev recuou um passo e respirou fundo.
- A honra de formular a primeira pergunta é sua, Dwar Reyn.
- Obrigado - disse Dwar Reyn. - Será uma pergunta que nenhuma máquina cibernética foi capaz de responder até hoje.
Virou-se para o computador.
- Deus existe?
A voz tonitruante respondeu sem hesitação, sem se ouvir o estalo de um único relé.
- Sim, agora Deus existe.
O rosto de Dwar Ev ficou tomado de súbito pavor. Saltou para desligar a chave de novo.
Um raio fulminante, caído de um céu sem nuvens, o acertou em cheio e deixou a chave ligada para sempre.
Encontramos umas estranhas pegadas nas areias do desconhecido. Formulamos teorias profundas, uma após a outra, para mostrar sua origem. Finalmente, conseguimos reconstruir a criatura que deixou a pegada. E vejam! A pegada é nossa!
Li essa frase há alguns anos atrás, que mexeu profundamente comigo. Ao contrário do que pode se pensar, ela não foi dita por Baudrillard ou Debord ou Foucault no século XX, mas sim por Oscar Wilde no século XIX. O iconoclasta francês viveu num tempo onde os tribunais franceses condenavam à prisão quem fosse homossexual, e Wilde foi 2 anos encarcerado pelo motivo de simplesmente seguir seus desejos. Em "O retrato de Dorian Gray", através do personagem Lorde Henry, Wilde mostra suas opiniões ácidas a respeito das leis, da moral e da domesticação do espírito humano. Seus pensamentos mais profundos foram expressos através dos aforismos.
Eis alguns dos meus preferidos:
"Todo mundo sabe compadecer o sofrimento de um amigo, mas é preciso ter uma alma realmente bonita para se apreciar o sucesso de um amigo"
"O mistério do amor é maior que o mistério da morte"
"Todos nós estamos na lama, mas alguns sabem ver as estrelas"
"Para ocultar a sua própria ignorância as pessoas inventam regras e dão conselhos, assim como sorriem para esconder as lágrimas"
"Podemos chegar à perfeição através da arte e somente através dela; só a arte pode nos proporcionar um refúgio contra os sórdidos perigos da vida"
"Um primeiro contato que começa com um elogio transformar-se-á
certamente em real amizade. Assim, ela nasce da forma mais bonita."
"Para qualquer um que conheça a história, a desobediência é a virtude original do homem. É com a desobediência que se realizou o progresso. Com a desobediência e a revolta."
"Viver é a coisa mais rara do mundo. Muitas pessoas existem, só isso"
" O dadaísmo quis suprimir a arte sem realizá-la; o surreliasmo quis realizar a arte sem suprimi-la. A eposição crítica elaborada desde então pelos situacionistas mostrou que a supressão e a realização da arte são os aspectos inseparáveis de uma mesma superação da arte"
Este trecho genial escrito por Guy Debord em sua magnum opus "A Sociedade do espetáculo" já me tirou muitas noites de sono. Os situacionistas tinham uma crítica extremamente bem elaborada já nos anos 60, reconhecendo que toda a arte ocidental é um reflexo desta cultura que caracteriza-se como uma esfera separada do cotidiano. A arte como ficou conhecida ao longo dos séculos, presente em lugares construídos especificamente para isso, contém o anceio de liberdade, o anceio de expressão direta, porém, não direcionados ao cotidiano.
Cada movimento artístico surgido a partir do barroco, caracterizou-se por ser a negação do anterior, até se chegar ao dadaísmo, que propôs algo radical: a anti-arte, o fim da arte. A arte, a embriaguez de espírito, como chamava Nietzsche, no século XX passou a ser defendida como característica inalienável de um aspecto inseparável da vida humana, mas dentro das situações de vivência cotidiana, e não nos museus para ser apreciada pela burguesia.
Essa é uma reivindicação extraordinária, mas como tirá-la dos livros e aplicá-la no cotidiano?
Isso só será possível se ocorresse antes a almejada revolução social, planejada e formulada por tantos marxistas e anarquistas?
Esse ano participei pela primeira vez do Fórum
Internacional do Software Livre, (FISL) que já se encontra em
sua nona edição. O Fórum acontece todo ano em
Porto Alegre e é um encontro da cultura hacker, que atrai
geeks do Brasil e do mundo todo, que lidam com tecnologias de código
aberto como o sistema operacional GNU/Linux. Pelos relatos que tive
de pessoas que já participaram em outros anos, pode-se notar
que o FISL está se tornando cada vez mais comercial, com filas
e filas de distribuição de brindes, como camisas da
Intel, Google, etc. Mas nem por isso o evento é descartável,
acontecem muitas palestras e atividades interessantes por lá,
tanto no nível binário (palestras e discussões
técnicas) quanto humano (palestras e discussões sobre a
filosofia de toda a coisa e sobre o futuro).
Assisti diversas palestras sobre a linguagem de
programação Python, aprendi um pouco de Ruby e
Smalltalk também. Além das palestras técnicas,
fiquei bastante contente com algumas discussões que
aconteceram em palestras não técnicas.
Uma palestra, com Sergio Amadeu, Gustavo Gindre, entre outros, tinha o título sugestivo de “o
fantasma do espectro” e trouxe um estudo histórico sobre os
espectros (eletromagnéticos) de transmissão de rádio
e TV e como eles possiblitam uma comunicação
bidirecional, onde uma pessoa comum poderia tanto receber como enviar
áudio e vídeo. Porém, por volta dos anos 50, os
espectros foram regulamentados de forma a serem concedidos faixas de
transmissão apenas a algumas poucas empresas, que continuam
até hoje agindo como manipuladoras da opinião pública
e do senso comum. Uma discussão importante nesse sentido é
sobre a TV Digital, que está em fase de implantação
em todo o país. A TV Digital, da mesma forma que o rádio
e TV analógicos, possui recursos tecnológicos para que
as pessoas não apenas assistam programas, mas também
produzam, e colaborem na criação. Mas infelizmente, o
protocolo que está sendo implantado no Brasil parece não
utilizar desta tecnologia.
"A internet surgiu da improvável
intersecção entre os militares, a big science e a
cultura hacker libertária"
A Internet, em contrapartida, é
revolucionária no sentido de garantir um espaço de
expressão para qualquer pessoa que deseje. Porém, uma
porcentagem muito baixa da populção tem acesso à
rede, e infelizmente continua tendo seus cérebros infectados
pelo que é transmitido na TV aberta.
Conheci também um trabalho muito interessante de um belga
chamado Etienne Delacroix, através da palestra que ele
realizou no FISL, que me interessou logo pelo nome: "Bits,
átomos, linguagens e sistemas". Ele mescla um trabalho de
metareciclagem, em que se realiza improvisações
técnicas com uma pedagogia no mínimo interessante.
Consegue explicar e demonstrar o deslocamento de bits para crianças
de forma extremamente pedagógica, quase mágica. Etienne
argumenta (parafraseando Deleuze) que a cultura moderna é
incompleta, no sentido de dar apenas utilidade aos objetos
tecnológicos, e não pensar sobre seus significados. Uma
cultura extremamente baseada no concreto. O resultado disso é
um acúmulo tão grande de máquinas que se torna
difícil saber do porquê estarem sendo construídas
em quantidades cada vez maiores.
Sua linha de trabalho se baseia em unificar a
computação com a arte, a partir dos Atelier-labs. Esse
vídeo mostra um trabalho realizado por Delacroix, uma espécie
de bateria eletrônica montada a partir da reciclagem de pedaços
de HD's estragados:
Carl G Jung foi um dos grandes pensadores e estudiosos da psique humana no século XX. Iniciou seus estudos nos círculos da psicanálise, a teoria que criou a a grande revolução da filosofia do início do século XX: a idéia de que a psique humana divide-se em consciente e inconsciente, mais especificamente, em ego, super-ego e id. E que os processos inconscientes, de caráter surrealista e não-lógico, acessíveis através dos sonhos, são a matriz do consciente, das neuroses, da própria personalidade humana. Assim como Wilhelm Reich, Jung foi "discípulo" de Freud e dentro de poucos anos rompeu com o "mestre", buscando caminhos diferentes da petrificada e dogmática psicanálise. Jung estudou todo tipo de cultura, etnia e religião que conseguiu, viajou por grande parte do globo, para formar uma teoria consistente, relativista e sobretudo humana.
Fascinado pelos símbolos, observando como os mesmos são importantes em todo o desenvolvimento da cultura humana, criou o conceito de arquétipo, e foi além da psicologia analítica, criando a hipótese de que abaixo do inconsciente pessoal, existe ainda o inconsciente coletivo, algo como a memória coletiva inconsciente da humanidade. Dessa forma, segundo o bigode, toda a humanidade está interligada através do inconsciente coletivo, de onde se originam os arquétipos, os símbolos universais. Tal afirmação me parece uma explicação razoável para fenômenos estranhos como visão remota/clarividência, previsão de acontecimentos através de sonhos (premonição) e sincronismos. Os espíritas explicam esses fenômenos de uma forma extremamente religiosa, que nunca me agradou, sempre apelando para o "darwinismo espiritual" onde tudo está relacionado a um nível de evolução espiritual, determinado por um conceito absoluto de bem e mal. A idéia de inconsciente coletivo tem seus paralelos atuais nos estudos de um bioquímico chamado Rupert Sheldrake e sua teoria dos campos morfogenéticos.
Jung é mal visto por toda a comunidade científica, assim como pelos psicanalistas (que trabalham em cima de conceitos tão metafísicos quanto Jung, mas se acham cientistas possuidores da verdade), sendo chamado de místico. É bom lembrar que a proposta de Jung não era criar uma teoria científica, até porquê parece impossível criar uma teoria científica da mente, partindo do ponto que não há com comprovar nem mesmo sua existência. O que Jung fez, foi criar uma filosofia, utilizando alguns conceitos da ciência ocidental e ao mesmo tempo, não rejeitando o universo da gnose, dos mitos, sonhos e símbolos. Foi de fato, um precursor na junção do pensamento ocidental e oriental, tendo publicado em conjunto com Wolgang Pauli (prêmio nobel de Física de 1945, criador da teoria do spin quântico e do princípio da exclusão) o livro "A interpretação da natureza e psique". Pauli criticou partes do trabalho de Jung, que foram revistas.
A teoria de Jung sempre esteve disposta a recebr críticas e ser revista, caracterizando-se assim como uma verdadeira filosofia, e não uma doutrina.
Algumas citações, retiradas do livro "O pensamento vivo de Jung" da Editora Martin Claret:
"A sociedade espera, e tem razão para esperar, que cada um desempenhe o mais perfeitamente possível o papel que lhe coube; assim, um homem que seja sacerdote deve em todas as ocasiões desempenhar impecavelmente o papel de sacerdote. A sociedade exige-o por uma espécie de segurança: todos devem permanecer no seu posto, aqui um sapateiro, além um poeta. Não se espera que ninguém seja ambas as coisas [...], isso seria "esquisito". Um homem desses seria "diferente" dos outros, não mereceria confiança. No mundo das letras seria um diletante; em política, uma grandeza "imprevisível"; em religião um livre-pensador. Em suma, seria suspeito de incompetência e inconsistência, pois a sociedade está convencida de que só um sapateiro que não seja poeta poderá fazer sapatos bem acabados."
"O sonho é o teatro em que o sonhador é simultaneamente a cena, o ator, o ponto, o diretor, o autor e o crítico."
Isso poderia ter sido escrito por Stirner, defendendo seu "único", ou Nietzsche, defendendo seu "super-homem":
"A individuação, o tornar-se si mesmo... é o problema da vida em geral."
"A individuação não exclui o universo, ela o inclui."
Porém, esse trecho mostra que, ao contrário de Nietzsche, que defendia a todo custo o espírito dionísico e irracional e a morte do espírito apolíneo e racional, Jung propõe um equilíbrio entre consciente e inconsciente:
"O consciente e inconsciente não constituem um todo, quando um deles
é suprimido ou injuriado pelo outro. Se hão de brigar, que ao menos
seja um combate leal, com direitos iguais para ambas as partes. Ambos
são aspectos da vida. A consciência tem de defender sua razão e
proteger-se; e a vida caótica do inconsciente deve ter a oportunidade
de também seguir seu fluxo. Isto significa simultaneamente conflito
aberto e franca colaboração. Era assim, evidentemente, que a vida
humana devia ser, o velho jogo do martelo e bigorna: por meio deles, o
ferro do paciente é forjado num todo indestrutível, um indivíduo. Eis,
em grandes linhas, o que eu entendo por processo de individuação."
"Conquanto tudo seja experimentado em forma de imagem, isto é, simbolicamente, não se trata de modo algum de perigos fictícios, mas sim de riscos muito reais, dos quais depende o destino de toda uma vida. O principal perigo é ceder à fascinante influência dos arquétipos. Se cedemos, podemos ficar paralisados numa situação simbólica ou na identificação com uma personalidade arquetípica."
Quantas pessoas se suicidaram influenciadas por seus ídolos, que interpretaram a figura arquetípica do eterno depressivo?
Desde 2003 acontece
todo ano em Belo Horizonte o Carnaval Revolução. Desde
2004 que tento participar mas nunca tenho dinheiro nessa época
do ano. Nesse ano não foi diferente, mas consegui algum
dinheiro emprestado e participei ao menos dessa vez, do que foi a
última edição do evento. A característica
mais interessante do Carnaval Revolução é a
multiplicidade da programação. Temas como
VEGetariANISMO, Software Livre, utilização de
Bicicletas, Hortas Urbanas, Fitoterapia, Somaiê, Anarquismo
Social, Primitivismo e principalmente cultura Faça-você-mesmo
estavam todos ali ao mesmo tempo, numa salada completada por
apresentações musicais. Fiquei um pouco decepcionado
com o cancelamento das atividads do Cacique Marcelo, que iria falar
sobre resistência e espiritualidade indígena, mas mesmo
assim, não estragou o evento. Uma coisa que chamou a atenção nos almoços foi o sistemecológico de lavar louças, conhecido como O Sistema das Três Bacias, hehehe. Aí vão algumas das minhas impressões
das atividades que participei no Carnaval:
Locomoção
urbana: a bicicleta na cidade
Nesse debate rolaram
trocas de experiências sobre a utilização da
bicicleta como meio de transporte ecológico. Como as cidades
modernas foram desenhadas para os carros, a situação
dos ciclistas parece ser a mesma na maior parte das cidades
brasileiras: quase não há ciclovias, e quando existem,
não levam a lugar algum ou apenas contornam parques. Além
disso, os ciclistas são geralmente vistos como o inimigo
número 2 dos motoristas, perdendo apenas para os motoqueiros.
Nesse sentido as bicicletadas têm um papel importante, pois só
quando estão em um grupo grande os ciclistas são
percebidos como trânsito. Mais sobre a bicicletada.
Primitivismo:
Essa foi a primeira e
única palestra do evento que participei feita por John Zerzan,
um pensador estadunidense que foi convidado para participar do
Carnaval.
Parece que o
primitivismo é algo que surge paralelamente à
manifestações como o terrorismo poético e
caoismo, ou guerrilhas psicológicas a la Wu Ming, Luther
Blisset e Discordianismo. Diria ainda que são descentendes dos
situacionistas, grupos e pessoas decepcionadas com os consecutivos
fracassos da esquerda tradicional, que parecem um tanto confusos e
buscam formas “esquisitas” de pensar e desafiar o mundo frio que
criamos.
Zerzan falou algumas
coisas interessantes sobre os rumos da tecnlogia e da civilização,
que se assemelharam ao que ele falou no documentário Surplus.
Criticou também a divisão e especialização
do trabalho, com um discurso que se aproxima de Bob Black. Até
aí ele fez uma fusão do que já disseram alguns
pensadores, como Ivan Ilitch, no texto Energia e Equidade, já
indicou que quanto maior o nível tecnológico, maior a
quantidade de energia necessária, e quanto mais energia não
metabólica está envolvida nos processos industriais,
menos igualdade e maior divisão de classes existirá. O
que desorientou o pessoal, além da tradução
problemática das falas do gringo, foi o fato da proposta de
Zerzan ser bastante atípica: acabar com toda tecnologia e
voltar a viver de forma primitiva, para assim causar o mínimo
de danos ao planeta. Do ponto de vista teórico até faz
sentido, num mundo primitivo sem tecnologias avançadas não
existem classes, uma vez que, como Marx já afirmou, a divisão
de classes é garantida pela existência de proprietários
das tecnologias e meios de produção. Mas do ponto de
vista prático, é muito difícil imaginar
esquecermos tudo e voltarmos às cavernas. Individualmente até
pode funcionar, mas não vai mudar nada, o resto do mundo vai
continuar destruindo tudo. Infelizmente Zerzan não respondeu
direito às diversas perguntas que as pessoas fizeram, e nem
explicou direito o conceito de tecnologia dele. Pessoalmente, acho
que o problema do primitivismo é demonizar demais o aspecto
tecnológico como culpado pela desgraça da humanidade.
Antes da criação das tecnologias existem interesses
individuais e coletivos que as criaram. Acredito que o interesse de
dominação humana que cria tecnologias de dominação,
e não o contrário. Ademais, não tenho leitura
suficiente no assunto pra formar uma opinião completa e fechada, pretendo
ainda ler os livros de Daniel Quinn, que muitos já me
recomendaram. O sítio erva daninha tem muita informação sobre o assunto.
Hortas Urbanas:
Essa atividade foi
conduzida pelo pessoal do grupo Germinal, que são algumas
pessoas da FARJ (Federação Anarquista do Rio de
Janeiro) envolvidas com agroecologia. Foram discutidas técnicas
de como estar cultivando em meio ao espaço urbano. Rolaram
discussões sobre como plantar os alimentos que comemos traz
autonomia às pessoas, além de ser a opção
mais saudável. O mais recomendado é utilizar sempre
sementes orgânicas (como as da marca Isla Sementes), livres de
qualquer tipo de agrotóxico. O mais interessante nesse sentido
são as hortas comunitárias, a realização
de multirões para transformar terrenos baldios em lugares de
vivência comunitária, cultivando alimentos. Mais sobre a FARJ nessa entrevista.
Somaiê:
A somaiê é
descrita como uma coisa vagabunda. É uma ramificação
da somaterapia, que foi criada por Roberto Freire, inspirada na
terapia corporal Reichiana, na capoeira angola, e na prática
anti-autoritária do anarquismo. Segundo Ruy Takeguma, criador da somaiê, o que diferencia a soma da somaiê é a inclusão da prática da biologia do conhecer, do chileno Humberto Maturana e o fato da soma ter se aproximado das universidades. No último dia do
Carnaval participei de um debate seguido de uma “sessão”
de somaiê. As sessões de somaiê são
compostas de exercícios com o intuito de desbloquear as
“couraças” ou neuroses criadas pelo autoritarismo e as
injustiças sociais. No debate, Ruy Takeguma fez uma crítica
à FARJ, com a justificativa de estar se defendendo das
críticas que a FARJ faz à somaiê. Dicotomias são
criadas em todos os lugares para separar os certos dos errados, os
vilões dos mocinhos, os verdadeiros revolucionários dos
falsos revolucionários, o corpo da mente, etc. Milênios
de anos seguindo a tática do “dividir e conquistar” e
praticamente não conseguimos pensar de outra forma.. A
dicotomia em moda no anarquismo é o “social VS estilo de
vida”. A maioria dos ativistas e militantes, condena práticas
como a da somaiê por focar na libertação do corpo
e da mente do indíviduo e não no coletivo. Assim como
gente como o Ruy da somaiê critica os ativistas e movimentos
sociais por tentarem salvar quem não quer salvação
e não olharem para si próprios. É uma questão
complicada, acho que o ideal é integrar práticas
libertárias tanto individual quanto coletivamente, pois não
consigo visualizar a raiz do problema como apenas no indíviduo
ou apenas no coletivo.
Pra entender melhor a soma e a somaiê, é interessante assistir o documentário "Soma, an anarchist therapy" feito por Nick Cooper. O trailer pode ser assistido aqui.
A bicicletada, antes de tudo, não é apenas um passeio ciclístico,
tampouco, apenas um protesto. É um passeio crítico, uma coincidência
organizada, e por isso escolhemos o horário de pico para pedalar.
Joinville é um caso típico da insustentabilidade dos automóveis. A
cidade, como tantas outras no país e no mundo, já não possui estrutura
para suportar o fluxo de tantos carros, principalmente nos horários de
pico. Ninguém realmente pode correr nesta hora e está cada vez mais
difícil andar rápido de carro (para felicidade dos que atravessam as
ruas). De forma contraditória, Joinville, é considerada a cidade das
bicicletas, mas somente os ciclistas notam que a cidade tem menos de
meia dúzia de ciclovias.
Antes da tirania dos automóveis, as cidades costumavam ser um espaço de
convivência, as ruas e praças eram lugares para se estar. Hoje, com as
modificações causadas pelo crescente uso de carros, as cidades
tornaram-se barulhentas, cinzas, fedorentas e as ruas apenas lugares
para se passar. 40 mil mortes por ano causadas por acidentes de carro,
efeito estufa, buracos na camada de ozônio, e a mídia continua dizendo
que precisamos comprar mais carros para sermos socialmente aceitos.
Todo o processo de degradação do ambiente e o aquecimento global é
acelerado pela fumaça dos automóveis. Se não fizermos algo agora, num
futuro não muito distante a superfície de nosso planeta irá tornar-se
tão hostil à sobrevivência quanto às superfícies de Marte ou de Vênus.
Nós pensamos a bicicleta como um meio de transporte. Nós e as milhares
de pessoas que não têm um carro ou preferem usar a bicicleta para
trabalhar, estudar e se locomover. A utilização da bicicleta consiste em
uma prática ecológica, saudável e divertida. Venha pedalar conosco em
todas as últimas sexta-feiras do mês! Venha de bicicleta skate, patinete
ou patins! Só não venha de carro!
Local de encontro: Praça do Mercado Municipal
Horário: 18h
Quando: Toda última sexta-feira do mês, começando em 25/01/2008
Ao falar sobre música como forma de resistência e/ou indignação em relação às atrocidades da ordem vigente, normalmente pensa-se em movimentos como o Folk estadunidense (notoriamente Woody Guthrie e seu pupilo Bob Dylan) e o Punk, que espalhou belas práticas como a do faça-você-mesmo. Mas há um paralelo africano com esses movimentos que infelizmente é pouquíssimo conhecido, o Afrobeat. Criado por Fela Ransome Kuti, o Afrobeat é uma mistura de jazz, funk e ritmos tradicionais africanos (highlife music). Fela Kuti nasceu na Nigéria e na juventude mudou-se para Londres a fim de estudar medicina, mas foi a música que capturou sua essência. Na Inglaterra mesmo, ele formou a banda ‘Koola Lobitos’.
No final dos anos 60, Fela Kuti foi para os Estados Unidos e gravou o disco, ‘The Los Angeles sessions’, e conheceu o grupo anti-racista ‘Panteras Negras’ que lhe mostrou o movimento blackpower, e acabou definindo sua luta política em prol de movimentos sociais na sua terra natal, tanto que ele renomeou a banda para ‘Nigéria 70’. Fela adotou o nome Anikulapo, que significava ‘aquele que carrega a morte no bolso’, e repudiou o nome Ransome por ser o nome de escravo da família. Com títulos sugestivos como Vagabundos no Poder, as músicas de Fela ridicularizavam os militares e a elite nigeriana, que cada vez mais explorava os pobres e usava da violência no regime ditatorial. Fela Kuti, muitas vezes, falava de problemas e tristeza em meio a percussões, sax, vozes femininas, bateria - groove. Sua mensagem passava do campo político para o campo humano, o que produzia uma atmosfera de identificação e prazer em suas apresentações, um clima de interação. O cenário de seus shows, um emaranhado de som, imagens, dança, ilusão e sonho, estava diretamente ligado a suas lutas e àquilo em que acreditava.
No auge de sua rebeldia - e megalomania -, Fela juntou seus seguidores e fundou a república de Kalakuta, declarando-a independente da Nigéria. O lugar, um conjunto de casas pintadas de amarelo e cercadas por arame farpado, tornou-se o lar perfeito para o retorno às raízes africanas que Fela tanto buscava em suas canções. O músico passava a maior parte dos dias sentado em um trono, vestindo apenas uma tanga e fumando baseados de maconha egípcia que impressionavam pelo tamanho. Para completar, casou-se com 27 mulheres de uma só vez, em uma cerimônia tribal que faria inveja a qualquer rockstar americano.
Na noite de 18 de fevereiro de 1977, mil soldados do exército nigeriano montaram cerco à comuna conhecida como República de Kalakuta. A missão era calar o maior popstar e rebelde antimilitarista africano: Fela Kuti. Mulheres foram estupradas pelos soldados e a mãe de Fela Kuti foi atirada do segundo andar de sua própria casa, vindo a falecer alguns meses depois. Fogo, destruição e a prisão de Fela Kuti foram os resultados da ação militar. Depois de um período de exílio em gana, o músico retornou à Nigéria. Durante os anos que se seguiram, Fela continuou a desafiar os militares e a ditadura na Nigéria e voltou para a cadeia algumas vezes, até que no dia 2 de agosto de 1997, morreu vítima da aids.
Sua música criativa e sincera ficou como influência em grandes jazzistas como Femi Kuti, (filho do Fela) o etíope Mulatu Astatke e o excelentíssimo grupo novaiorquino Antibalas Afrobeat Orchestra. O Antibalas é um dos meus grupos favoritos e está na ativa seguindo a tradição do afrobeat, juntando ritmos dançantes e experimentalismo à uma profunda mensagem política e humana.
Há um bom tempo cultivei um grande interesse por iniciativas de
geração de energia alternativa/livre, especialmente quando li um texto
que narra algumas das alucinantes experiências de Nikola Tesla. Tesla foi provavelmente o maior hacker que já existiu,
muito antes da computação ou do termo ter sido criado. Além de ter
compreendido como ninguém os fenômenos eletromagnéticos, inventando as
bobinas, a geração alternada de energia elétrica e diversas outras,
gastou boa parte de sua vida procurando uma solução sustentável de
energia, que garantisse seu acesso gratuito à todos/as, independente de
classes sociais. Nesse ponto, Tesla mostrou ser um cientista preocupado
com os fins que seus inventos seriam utilizados, negando várias vezes
trabalhar para o exército, ao contrário de gente como John Von Neumann,
considerado o criador da computação, que utilizou sua inteligência e
genialidade matemática para ajudar os militares estadunidenses a matar
pessoas de forma mais "criativa".
Tesla percebeu que o próprio
solo e o planeta terra são grandes condutores elétricos, repletos de
energia eletromagnética, bastando apenas conseguir captar essas
radiações de forma adequada em circuitos de corrente elétrica. Quando
ele construiu seus primeiros geradores a partir desses conceitos,
percebeu que há uma energia muito maior que ele imaginava presente na
atmosfera (orgônio?), tanto que com a captação da energia, incendiou um
de seus laboratórios e fez com que toda uma cidade ficasse sem energia
elétrica, pois seus equipamentos não estavam preparados para tal
(over)dose de energia. J.P. Morgan, investidor e banqueiro, parou de
investir nas pesquisas de Tesla quando percebeu o problema que um
gerador que capta energia renovável livremente causaria aos grandes
capitalistas da época. O lucro das maiores corporações petrolíferas, os
governos e talvez o próprio sistema de produção capitalista seriam
ameaçados pelos gerados de Tesla, pois se as pessoas pudessem ter
energia elétrica barata ou de graça, poderiam tornar-se
auto-suficientes em alguns pontos, sem dependência de instituições
lucrativas. %
Com
muito entusiasmo, recentemente tomei nota de uma comunidade na suíça
chamada Methernita estar utilizando o que parece ser o primeiro gerador
funcional de energia livre, depois das experiências de Tesla.
Methernitha é ao mesmo tempo uma cooperativa/comunidade e um conjunto
de pessoas que partilham uma mesma visão cristã primitiva, o chamado
comunalismo cristão, forma de organização predominante antes do
cristianismo ter sido adotado por Roma e idealizado por gente como
Leonardo Boff e a Teologia da Libertação. A comunidade se organiza
sustentavelmente - sem poluir o ambiente - e sem depender do estado
suiço para obtenção de energia elétrica. Parece que algúem por lá leu
muito Tolstoi, hehehe.
Nessa página,
Paul Baumann, engenheiro e visionário criador do gerador Testatika
explica detalhadamente as bases físicas, filosóficas e religiosas (!)
do gerador. A questão é, nem Baumann entende completamente o
funcionamento da engenhoca. Tudo o que pode-se afirmar é que trata-se
de um gerador eletrostático com dois discos/bobinas baseado numa
máquina eletrostática de 1889 chamada Pidgeon. Se Baumann fosse um
cientista, ao invés de técnico/engenheiro, nunca perderia 20 anos em
cima da construção do Testatika, porquê esse gerador e qualquer gerador
de energia livre fere a primeira lei da termodinâmica (princípio de
conservação de calor e energia) e os cientistas nunca iriam tentar nada
que vá contra alguma lei (sagrada) da física. Vejamos o que Baumann
fala sobre a construção de seu gerador:
"This wonder machine is lurked from nature, nothing else. Nature is the
greatest source of power as well as knowledge which man has, and it
still conceals many secrets, which are only revealed to those, who
approach and tie in with them with highest respect and responsibility.
To understand nature and to perceive its voice, man is obliged to
experience silence and solitude, and it was there, where the knowledge
about this technology was obtained."
Nesse ponto começamos a entender o lado freak/visionário de Baumann, ele afirma que
aprendeu a tecnologia do gerador nada mais nada menos que com a Mãe
Natureza (!), que lhe ensina os segredos a quem se aproxima dela com
responsabilidade. Os mas céticos certamente vão a loucura ao ler isso.
E esse trecho complementa:
"This machine puts experts, which are just trained in conventional physics
to a very hard test, because its mode of action is not explainable with
the state of the art of officially accepted physical knowledge, or at the
most only partially explainable. However also a trained specialist should
remain free and independent in his thinking, and should avoid to be limited
by the temporal framework of publicly admitted knowledge in any science"
Ou
seja, ele afirma que as leis atuais da física não são suficientes para
explicar o princípio fundamental do gerador. Em outros trechos, Baumann
complementa sua visão místico/religiosa: "The hard facts rather
show how far man has left the divine order through
his self willed and authoritarian way of action and that he has become
the actual cause of all discord and evil on this planet. Unfortunately
the ruling bodies that should be responsible for the well-being
of the people work too often with the target to make life more and more
difficult and to render impossible every free spiritual development.
Instead of utilising the achievements of science and technology for
the benefit and preservation of all form of life, they are abused
carelessly
and irresponsibly to destroy and to kill, and thus turn them into
a curse upon mankind. To change all this, the evolution of a new
technology is not enough,
even if it were the most ecological and ingenious. To change this
present
status one has to go much deeper down, to the root-cause of all this
evil,
and this is mans way of thinking, his state of mind."
Entendendo ou não o funcionamento do gerador, concordando ou
rindo do misticismo de Paul Baumann, o mais interessante é que diversas
pessoas no mundo todo estão testando e construindo réplicas desse
gerador, e se funcionar corretamente nos outros lugares e com a difusão
desse conhecimento pela internet, teremos como aplicar essa tecnologia
em iniciativas como as de Permacultura.
A criação de uma nova tecnologia não é o suficiente para transformar
relações de poder em relações de apoio mútuo, mas determinadas
tecnologias são favoráveis para tal processo, principalmente as
tecnologias limpas, como as bicicletas. Estabelecer lugares comunitários de convivência, assim como distribuir e desespecializar o conhecimento e a técnica, são ações fundamentais para uma mudança de paradigma, da dependência à autonomia, da passividade à ação, da monotonia à criatividade.
Os recursos energéticos
(sejam os combústiveis para os automóveis ou a energia elétrica) são
uma das maiores correntes que amarram os indíviduos às instituições de
poder. Com alternativas que afrouxem essas correntes, talvez tenhamos
terrenos livres para experimentar formas mais sustentáveis de
livre-associações.
É impressionante como nas últimas décadas o mercado se tornou
especialista em produzir mais e mais tecnologias novas, que nem sempre
são melhores que as anteriores, mas mesmo assim as pessoas convencem-se
que são. Dois exemplos típicos são no âmbito da música: amplificadores
solid state (transistorizados) e mídia CD. Ambos oferecem alguns
benefícios imediatos: os amplificadores produzidos com transístors ao
invés de válvulas tornaram-se mais baratos e leves, assim como o CD
trouxe a vantagem do tamanho flexível, capaz de se transformar
facilmente. Mas em questão de timbre musical, nada se compara aos
amplificadores valvulados e aos nostálgicos vinis. Segue abaixo a
explicação do porquê, diretamente coletada da Matrix:
Válvulas
O
verdadeiro motivo pelo qual amplificadores valvulados soam melhor do
que seus descendentes solid state é a diferença das características de
seus componentes ativos ou seja, válvulas e transistores. Os
transistores saturam-se com extrema facilidade e é exatamente por isso
que é difícil projetar um amplificador solid state com som limpo, sem
distorções. A válvula satura-se com mais dificuldade e por isso os
amplificadores valvulados apresentam um som tão limpo e cristalino.
Mas, quando se usa distorção (saturação) é que os solid state ficam
ridículos (Em tempo: quando falo de distorção/saturação, refiro-me aos
altos volumes e não à utilização de pedais overdrive, ok?).
Os
transistores, assim como as válvulas, geram freqüências inexistentes no
som original (som da guitarra), além de achatar demasiadamente os picos
da forma de onda. Essas freqüências sempre são harmônicos de cada
freqüência original e é aí que reside a principal diferença sonora. Os
transistores geram harmônicos de todas as ordens e as válvulas geram,
apenas, os harmônicos pares. O resultado é uma distorção clara e firme
nos amplificadores valvulados e uma distorção "suja" com graves e
médios-graves "ocos" nos solid state. Num acorde distorcido nos
valvulados notam-se todas as notas; é possível dedilhar deliciosamente
e emendar um solo arrasador seguido de uma palhetada delirante nos
bordões. Nos solid state só conseguimos chegar mais ou menos perto
disso, com amplificadores extremamente bem projetados, de som limpo, e
utilizando overdrives valvulados, mesmo assim obtemos a típica
distorção de pré. Outros dois fatores que moldam o timbre dos
valvulados é a ressonância da própria válvula que é oca e trabalha com
vácuo e o transformador de saída, que não é linear e, portanto introduz
modificações no timbre (Os transistores não necessitam de
transformadores para acoplarem-se aos alto-falantes, já as válvulas,
devido a sua alta impedância de saída, devem ter essa impedância casada
com a dos alto-falantes). Isso modifica drasticamente as
características originais do sinal da guitarra. Um inconveniente da
distorção dos valvulados é que só conseguimos os melhores timbres com
altos volumes (você tem vizinhos?) pois as válvulas saturam-se quando
estão trabalhando com altos ganhos e isso, nos pentodos ou tetrodos de
saída, significa regime de alta potência.
Vinis
No vinil a gravação é analógica, ou seja, as ranhuras produzem na
agulha as vibrações (ondas, senóides) do ar que geraram o som, conforme
foi gravado, com todos os sons harmônicos que são gerados na execução
ao vivo. No CD há uma digitalização dos sons, isto é, cada ponto da
senóide que representa o som é convertido em um grupo de sinais 0 e 1.
Quanto maior a capacidade de gravação dos CD ou quanto menor for o
espaço físico necessário para a gravação digital, que ocupa muito mais
espaço físico para armazenar a mesma quantidade de som (com harmônicos
e tudo) do que um equipamento analógico, melhor será o som do CD. Hoje,
por uma questão do espaço exigido pela tecnologia disponível, há
necessidade de uma redução da quantidade de harmônicos para que caiba
em um CD, portanto, em tese, a qualidade do CD é menor. Ocorre que a
diferença não é quase perceptível pelo ouvido humano médio. Em discos
analógicos de vinil ou alumínio o som é muito
mais "completo" que o do CD, tem todos os harmônicos que foram
produzidos durante a execução ao vivo. O nosso ouvido é analógico e não
digital, se o digital fosse melhor, com certeza nasceríamos com ouvido
digital. A mídia digital tem outros benefícios.
Beber a vida num trago, e nesse trago
Todas as sensações que a vida dá
Em todas as suas formas [...]
É com essa frase que se inicia a
peça de teatro que assisti hoje, baseada no texto "Primeiro Fausto" de
Fernando Pessoa, que por sua vez, é baseado no mito original contado
por Goethe. A imutável condição humana, a incapacidade de compreensão
da realidade ou verdade final, é o tema exposto nesse monólogo. Seria
fácil se a vida pudesse ser compreendida num trago, como Fausto almeja
no início da peça.
Porém, parece impossível compreender a vida,
restando apenas vivê-la. Fausto, não se contenta com isso, e vai
afundando cada vez mais em seus devaneios existenciais. Perambulando de
um lado para o outro em cima de um tabuleiro de xadrez até, em última
instância, encontrar-se consigo mesmo. Segurando um espelho, e olhando
a si próprio, questiona o paradoxo fundamental da existência: será o
momento da morte a única forma de explicar a vida? Ou será que a morte
simplesmente nos levará a outras formas de vida, também sem explicação,
e a falta de sentido seja a verdade universal?
O lirismo
utilizado na peça (foram utilizados os versos originais de Fernando
Pessoa) pode torná-la um pouco mais complexa para a compreensão
imediata, mas traz uma beleza sem igual ao/à expectador/a. Estamos
acostumados com o imediatismo de frases diretas, ou imagens prontas nas
telas de cinema hollywoodianas, que estão matando nossa percepção
crítica e criativa.
Por fim, os efeitos sonoros e visuais em um
telão deram um ar moderno ao mito, que continua sendo o problema
central da filosofia, e por isso dificilmente deixará de parecer atual,
mesmo com o personagem Fausto vestindo roupas típicas do século XVII e
XIX.
Recomendo fortemente que assistam à peça, está em exibição todas
as quartas de agosto e setembro, às 20h, na Cidadela Cultural da Antarctica. Parte do texto de Pessoa pode ser lido aqui.